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revista impressa: 36 à 39
A menopausa das mulheres brasileiras ocorre em média aos 48,6 anos de
idade. É denominada menopausa precoce quando se estabelece antes dos 40
anos de idade. Outro termo utilizado é amenorréia hipergonadotrópica da
mulher jovem devido à grande freqüência de processos auto-imunes que
bloqueiam a célula esteroidiana do ovário, simulando bioquimicamente uma
menopausa. Esses casos algumas vezes permitem ovulações e mesmo
gravidezes mediante tratamento adequado. Não sendo essa a razão da
aparente menopausa, a fisiopatologia é a mesma da menopausa comum, ou
seja, esgotamento dos folículos ovarianos.
Pré-menopausa é um período que se inicia aproximadamente ao redor dos 45
anos de idade e se caracteriza pelo aparecimento de perturbações
menstruais. Às vezes surgem apenas as ondas de calor, mas as
menstruações continuam normais. É uma questão de sensibilidade do
órgão-alvo. As ondas de calor indicam ser a concentração estrogênica
insuficiente para manter a fisiologia do gerador de pulsos de GnRH do
hipotálamo. No caso das ondas de calor, está comprometida a fisiologia
endometrial. Para efeito de marco da menopausa valem apenas as
perturbações menstruais, embora para efeito de tratamento seja
conveniente excluir depressão, hipertensão e hipertireoidismo e
administrar drogas, se necessário.
Perimenopausa ou climatério é o período que se inicia na pré-menopausa e
termina um ano depois da menopausa. Essa definição é da Organização
Mundial da Saúde e diverge da definição da Sociedade Internacional da
Menopausa que prolonga o tempo de vigência do climatério até a velhice.
É importante pontuar que o fim do climatério assinala também o fim do
período fértil da mulher.
Pós-menopausa é o período que se segue à menopausa e se prolonga até a
velhice ou maior idade. O início da velhice é impreciso.
A epidemiologia do climatério se confunde com a epidemiologia da
pós-menopausa. Climatério e pós-menopausa não representam doenças, porém
são estados caracterizados pela crescente carência estrogênica e também
pelos fenômenos do envelhecimento. O binômio carência estrogênica e
envelhecimento podem acarretar processos patológicos e, calculando-se
que em 2020 haverá mais de 1 bilhão de indivíduos acima de 60 anos de
idade, o climatério e a pós-menopausa passam a constituir um tema
principal de saúde pública. Fazendo-se a prevenção adequada nessas
fases, melhora-se a sobrevida e a qualidade de vida relacionada à saúde
das mulheres interessadas.
Epidemiologia da pós-menopausa
É cada vez maior o número de centenários, fato que anuncia o aumento da
longevidade dos indivíduos. Atualmente, a pós-menopausa abrange cerca de
um terço da vida das mulheres. O déficit da função ovariana é total na
maioria das mulheres, cerca de cinco anos depois da menopausa. Esse
déficit pode ser teoricamente mais precoce em um terço dessas mulheres
que são submetidas à histerectomia até a idade de 65 anos, em muitos
casos associada à ooforectomia. A produção hormonal em termos de
andrógenos e estrógenos, de origem ovariana e supra-renal no início, e
depois somente de origem supra-renal, continua por tempo variável na
pós-menopausa. Os sintomas menopausais e outras seqüelas da privação
hormonal são aliviados na maioria das mulheres pelo tratamento de
reposição hormonal (TRH), realizado com nutracêuticos contendo
fitoestrógenos ou com estrógenos naturais convencionais. O TRH com os
estrógenos convencionais é combatido por representar a medicalização da
mulher menopausal(9).
A epidemiologia da pós-menopausa estuda os fatores determinantes,
funcionais e anatômicos, da ocorrência e distribuição da saúde, doença e
morte. Esses fatores são determinados fundamentalmente por três
elementos: acaso, constituição e estilo de vida. O único elemento que
pode ser modificado eficazmente é o estilo de vida.
Estilo de vida é o modo como o indivíduo cuida de si próprio e como ele
se relaciona com o ambiente. O estilo de vida prepara o indivíduo a
enfrentar a vida na adversidade mantendo adequadamente o equilíbrio
emocional, físico e social.
Como mesmo na doença que se acompanha de déficits anatômico e funcional,
o indivíduo é capaz de manter uma boa qualidade de vida relacionada a
saúde redimensionando o seu estilo de vida.
Através da intervenção ativa, a epidemiologia define os problemas do
climatérico e da menopausa, determina suas causas e estabelece os meios
de detecção e prevenção, gerando o controle epidemiológico da
pós-menopausa. Por exemplo, a cefaléia é um problema significativo na
menopausa e em usuárias de TRH. É difícil prever quais são as mulheres
que apresentarão cefaléias intensas na menopausa e com TRH, mas se
verifica que pacientes com antecedente de enxaqueca e que não sabem
lidar com estressores estão mais sujeitas ao sintoma(10). A ajuda de um
profissional de saúde poderá ser decisiva no sentido de diminuir a
freqüência dos surtos de cefaléia.
Qualidade de vida e estilo de vida
Sendo a saúde definida como um estado de bem-estar emocional, físico e
social, qualidade de vida é um estado que permite ao indivíduo continuar
a viver confortavelmente, segundo os seus padrões, de modo a manter o
seu equilíbrio fisiológico, psicológico e social no cuidado de vida
diário. Um estilo de vida saudável se encontra ligado uma boa qualidade
de vida.
As ondas de calor e a sudorese, que acometem cerca de 80% das mulheres
na pós-menopausa, constituem fator importante na deterioração da
qualidade de vida. Como esses fenômenos interferem com o sono, a sua
erradicação determina maior vitalidade e menor isolamento social das
pacientes.
O déficit estrogênico também está relacionado à secura vaginal e
síndrome uretral. O uso de estrógenos melhora essas manifestações e,
além disso, a maioria das pacientes refere diminuição dos problemas
sexuais. Esses tópicos demonstram o valor do TRH na melhora da qualidade
de vida das mulheres menopausadas. Esse fato, apesar de evidente, deve
ser repisado, pois ainda é enorme o contingente de pacientes que, apesar
de sintomáticas, não fazem uso do tratamento.
Uma das preocupações epidemiológicas em relação aos cuidados da
menopausa é a obediência ao TRH, embora o seu valor em termos de
medicina baseada em evidências seja freqüentemente colocado em dúvida,
alguns autores recomendando que as medidas tomadas nesse sentido sejam
adotadas numa base individual(12). Independentemente das controvérsias,
se o tratamento estiver indicado, a disciplina na tomada da medicação é
um fator essencial e determinado pelo estilo de vida da paciente.
Os cuidados com a saúde também compreendem uma vida emocional saudável,
intrapessoal e interpessoal. Deve haver a redução da ingestão de álcool,
a suspensão do hábito de fumo, a adoção de um período de sono adequado,
de uma dieta bem balanceada e um programa de exercícios físicos. Com
essas medidas é aumentado o bem-estar e são reduzidos os riscos vascular
e osteoporótico. A inatividade física e o fumo são fatores que aumentam
o risco de infecções nas pacientes idosas(16).
A perda de peso é um fator protetor contra o desenvolvimento de
neoplasias de rim, endométrio, cólon, endométrio, vesícula biliar e
mama, principalmente do cólon, endométrio e mama, em mulheres
menopausadas(2).
A prevenção da doença coronariana idealmente é feita através da adoção
de medidas gerais: manutenção do peso normal, programa diário de
exercícios, controle da pressão arterial, dieta pobre em colesterol e
ingestão diária de aspirina(8).
O componente agudo do climatério
As ondas de calor aparecem em cerca de 75% das mulheres. O seu
aparecimento é precoce, motivo pelo qual elas constituem o componente
agudo do climatério, juntamente com as perturbações menstruais. O
tratamento estrogênico resolve praticamente todos os casos de ondas de
calor. O tratamento progestogênico, associado ao estrógeno ou isolado,
resolve o problema menstrual. O tratamento precoce dos distúrbios
menstruais diminui o risco de osteoporose em decorrência do déficit de
estrógeno ou progesterona(18). O consumo de derivados da soja tem efeito
protetor contra as ondas de calor(17).
O componente crônico do climatério e da pós-menopausa
Doença crônica é um estado permanente de incapacidade residual
conseqüente a processo patológico irreversível que admite uma
reabilitação parcial, que exige cuidados médicos prolongados e onde a
medicina preventiva é pouco eficaz. Climatério e pós-menopausa são
estados caracterizados pela crescente carência estrogênica cuja
intensidade varia entre as mulheres. As ondas de calor podem persistir
por anos a fio e, portanto, também podem representar um componente
crônico. Outros componentes crônicos são: a atrofia das mucosas
geniturinárias e da pele, a osteoporose, as doenças cardio e
cerebrovasculares, e a doença de Alzheimer. Portanto, se houver carência
estrogênica, as mulheres climatéricas e menopausadas devem usar
estrógenos para conservar a saúde e reverter os sintomas ou seqüelas da
carência.
É preciso ressaltar, porém, que os fenômenos decorrentes do
envelhecimento continuam, apesar da correção da carência hormonal.
Em relação aos ossos, as fraturas do quadril constituem um fator que
aumenta a mortalidade de mulheres menopausadas outrossim saudáveis; o
TRH e a multiparidade diminuem o risco de fraturas e, conseqüentemente,
também a mortalidade(5). A densidade mineral óssea maior está
relacionada com a diminuição do risco de câncer do cólon, atribuindo-se
esse fato ao microambiente estrogênico mais rico naquela condição(28).
Em relação ao sistema cardio e cerebrovascular, o perfil lipídico sofre
alterações aterogênicas. O colesterol total se eleva principalmente no
climatério. O HDL colesterol diminui entre 11,5 e 14,7%(26). Os
estrógenos oferecem uma proteção sobre o sistema vascular, diminuindo o
risco de acidente vascular cerebral (risco relativo de 0,69) e de morte
por acidente vascular cerebral (risco relativo de 0,37). A hipertensão
não é contra-indicação para o TRH(7). O risco de eventos tromboembólicos
aumenta com o TRH, principalmente em pacientes com antecedentes de
tromboembolismo venoso(11). O TRH com estrógeno e progestógeno, por via
oral ou percutânea, apesar de evidenciar atenuação dos benefícios do
tratamento estrogênico isolado sobre o fibrinogênio e HDL colesterol,
diminui significativamente os riscos cardiovasculares e provavelmente
também o risco de doença coronariana da mulher menopausada(22). O estudo
HERS coloca em dúvida o papel dos estrógenos conjugados associados ao
acetato de medroxiprogesterona na prevenção secundária no sistema
cardiovascular(3).
Em relação ao sistema nervoso central, a crença de que as mulheres
climatéricas se tornam deprimidas, ansiosas e irritáveis não é
confirmada por pesquisas sérias, embora o tema seja controverso(21). As
mudanças e os estresses da vida familiar que ocorrem nos anos da
menopausa podem desencadear mais estados depressivos do que a carência
hormonal. As pacientes nessa fase com depressão têm mais problemas
relacionados ao casamento, ao amor, à sexualidade, à família, ao
emprego, ao isolamento social e às queixas psíquicas e somáticas do que
pacientes sem depressão. É sabido que as mudanças de vida de uma pessoa
podem esgotar os seus recursos destinados à adaptação e assim contribuir
para o início de várias doenças. Por isso, parece que a incidência de
distúrbios mentais na menopausa podem ser muito mais decorrente da
interação entre fatores biológicos, a experiência das modificações
biológicas e os eventos vitais nessa fase. A diminuição dos estrógenos
pode contribuir para uma diminuição da vigilância - definida como o grau
de organização e disponibilidade do comportamento adaptável do ser
humano - que, por sua vez, depende do estado dinâmico da rede neural. A
menor adaptabilidade do sistema nervoso na época da menopausa pode
torná-lo mais vulnerável a estresses, particularmente, lesivos, tais
como baixa auto-estima e satisfação de vida, principalmente na presença
de problemas anteriores de saúde mental. O estresse psicológico durante
a transição menopausal pode indicar uma vulnerabilidade psicológica ou
fisiológica e não uma reação específica aos eventos menopausais(1). Há
correntes que atribuem aos estrógenos um papel antidepressivo que pode
ser utilizado na profilaxia, como monoterapia ou como adjuvante dos
antidepressivos convencionais(25). A depressão freqüentemente é
determinante de disfunção sexual na mulher menopausada(6).
Na República Federal Alemã a maioria dos casos de demência pertence ao
sexo feminino. Entre elas, sobressai a doença de Alzheimer que apresenta
um componente genético e um componente metabólico adquirido. A doença é
caracterizada pela formação de placas no circuito neuronal devido à
formação de beta-4-proteínas e tau-proteínas fibrilares. Essas proteínas
são de natureza neurotóxica e facilitam a apoptose de neurônios
cerebrais, diminuindo a capacidade cognitiva do indivíduo. Atuando nesse
mecanismo, os estrógenos parecem ser capazes de reduzir o risco de
demência(15). Esse tema ainda é controverso(23).
Em relação à mama, menopausa tardia e obesidade pós-menopausal são
fatores de risco para câncer da mama, estando associados com
concentrações mais elevadas de estradiol endógeno. O consenso atual é de
que o tratamento estrogênico em longo prazo (>10 anos) está associado
com o aumento do risco do câncer da mama, equivalente ao risco associado
ao retardamento da menopausa pelo mesmo período de tempo. A associação
com progesterona aumenta esse risco, o qual tende a diminuir após a
suspensão do tratamento. O álcool aumenta o risco ao passo que a
atividade física provavelmente é protetora. São razões importantes para
a redução do consumo do álcool, a adoção de uma dieta balanceada e a
atividade física na pós-menopausa; esses cuidados também são válidos
para o câncer endometrial. Idade avançada, história familiar de câncer
da mama, menarca precoce, gravidez a termo tardia e ausência de lactação
são outros fatores de risco primários(27). A presença de mutações
genéticas aumentam o risco, mas constituem a minoria(13). Calcula-se que
o tratamento de reposição estrogênica aumenta o risco de câncer
endometrial em 120% para cada cinco anos de uso, e de câncer da mama em
aproximadamente 10% para cada cinco anos de uso. A via vaginal
proporciona níveis adequados de progesterona em nível endometrial e
eleva menos os níveis circulantes de progesterona do que a via oral, o
que pressupõem efeitos quase nulos sobre a mama. Além disso, os esquemas
de baixa dosagem e com progestógenos a cada quatro meses, além de
diminuir o risco do câncer endometrial, reduzem o risco do câncer da
mama(19). O 17-beta-estradiol é um genotóxico fraco e um carcinógeno
mutagênico. O risco também depende da duração e provavelmente da dose de
exposição e também de fatores ambientais e genéticos predisponentes. Os
esquemas de baixa dosagem são preferidas e se recomenda que a dose deve
ser a mais baixa possível(12). O risco de câncer da mama aumenta
proporcionalmente à densidade mineral óssea na pós-menopausa(4).
Em relação ao câncer do ovário, mulheres com menopausa tardia e ciclos
menstruais irregulares têm menor risco de câncer do ovário, ao passo que
o papel do TRH e os tratamentos de infertilidade ainda não estão
esclarecidos(14). Acreditam alguns que o uso de estrógenos por 10 anos
ou mais pode aumentar o risco do câncer do ovário, aumento esse que pode
persistir por 29 anos depois da suspensão(20).
Um fato curioso foi verificado em relação ao casamento. Mulheres casadas
tendem a apresentar uma menopausa mais tardia do que as mulheres
solteiras ou divorciadas. Uma explicação alternativa é a influência
feromonal do homem na casa(24).
Em resumo, a epidemiologia do climatério e da pós-menopausa possibilita
a adoção de uma série de medidas preventivas, primárias, secundárias ou
terciárias que melhoram a sobrevida e a qualidade de vida das mulheres
nessa fase da vida.
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