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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO IV - NÚMERO 44 - NOVEMBRO DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: EM ANDAMENTO

CLAMÍDIA E ESTERILIDADE

       Quando o assunto é DST - doenças sexualmente transmissíveis -, as pessoas lembram-se da AIDS, da gonorréia, da sífilis, do herpes genital, das verrugas (condilomas)... Mas, nos dias atuais, a DST curável que mais rapidamente se dissemina entre adolescentes e adultos jovens é causada por uma bactéria cujo nome é praticamente desconhecido: a Chlamydia trachomatis.

        A Chlamydia trachomatis possui 18 sorotipos (variantes genéticas). Dependendo do sorotipo, essa bactéria pode ser responsável por doenças infecciosas distintas. Os sorotipos A, B, Ba e C são responsáveis pelo tracoma – uma doença ocular que atinge a população pobre dos países subdesenvolvidos (Brasil no meio). Os sorotipos L1, L2 e L3 são os agentes do linfogranuloma venéreo – uma DST, cuja principal característica é a inflamação dolorosa dos gânglios linfáticos da virilha (íngua) que, se não for tratada em seus estágios iniciais, poderá evoluir para o rompimento e a formação de fístulas com drenagem de pus. Os sorotipos B, D, E, F, G, e K são capazes de causar infecções oculares (não tracomatosas), infecções genitais, uretrites, pneumonias, peri-hepatites, síndrome de Reiter (uretrite, conjuntivite e artrite), etc. Na mulher, a clamídia poderá infectar o colo do útero (cervicite), as glândulas de Bartholin (bartolinite), o interior do útero (endometrite) e as trompas (salpingites), podendo inclusive ser transmitida ao bebê durante o parto.

        O aspecto mais importante da infecção pela clamídia – e principal motivo para a sua disseminação - é que 50% dos homens e 70% das mulheres infectadas são portadores assintomáticos. Isto é, abrigam essa bactéria em seus órgãos reprodutores e não apresentam nenhum sintoma. Acreditando-se sadios, eles e elas transmitem aos seus parceiros sexuais a infecção. E o que é pior: a falta de sintomas não significa ausência de danos ao organismo. Na mulher, a infecção pode ascender, silenciosamente, do colo do útero para o interior das trompas, comprometendo sua permeabilidade e transformando-se numa causa importante de esterilidade feminina.

O aspecto mais importante da infecção pela clamídia é que 50% dos homens e 70% das mulheres infectadas são portadores assintomáticos.

        Nos países desenvolvidos (Estados Unidos no meio), a infecção genital pela Chlamydia trachomatis é motivo de grande preocupação por parte das autoridades de saúde pública. Estima-se que, a cada ano, dois milhões e oitocentos mil americanos e americanas (principalmente adolescentes e adultos jovens) são infectados. No Brasil, as estimativas da Coordenação Nacional de DST/AIDS apontam que quase dois milhões de novos casos ocorrem anualmente, atingindo mais mulheres do que de homens sexualmente ativos. Apesar dos números, o combate a esta infecção (e a prevenção de sua transmissão) ainda não é uma prioridade das autoridades sanitárias brasileiras (!).

        A infecção pela clamídia deve ser lembrada em todos os casos de inflamações genitais (corrimento, dor pélvica) e urinárias (uretrites, dor ou ardência ao urinar) que ocorram, entre sete e vinte e um dias, após uma relação sexual desprotegida (sem camisinha). Ginecologistas e urologistas também deverão lembrar-se desse patógeno quando procurados, em seus consultórios, por adolescentes e adultos jovens que apresentem esses sintomas. Os portadores assintomáticos poderão ser diagnosticados mediante exames laboratoriais específicos (secreções vaginais, uretrais e na urina).

        O tratamento da infecção pela Chlamydia trachomatis é semelhante ao da gonorréia. Atualmente, dispomos de uma grande variedade de medicamentos – e esquemas posológicos - eficazes contra essa bactéria. Os antibióticos e quimioterápicos mais freqüentemente utilizados são a azitromicina, a doxiciclina, a eritromicina, a clindamicina, o sulfametoxazol, a tetraciclina e as quinolonas.

        Considerando as desastrosas conseqüências que esta infecção pode representar para o futuro reprodutivo de centenas de milhares de adolescentes brasileiras (esterilidade), nunca será demasiado lembrar a importância da prevenção (camisinha) e do diagnóstico dos portadores.

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 Para saber mais sobre este assunto:

   Diagnóstico da infecção urogenital por Chlamydia trachomatis - JOÃO MICHELON & cols - Scientia Medica, Porto Alegre: PUCRS, v. 15, n. 2, abr./jun. 2005

  INFECÇÃO GENITAL POR CHLAMYDIA TRACHOMATIS EM CASAIS ATENDIDOS EM AMBULATÓRIO DE ESTERILIDADE CONJUGAL - Dr. Carlos AS Marques e cols.- DST – J bras Doenças Sex Transm 2007; 19(1): 5-10

  Infecção Genital por Chlamydia trachomatis e Esterilidade – Dr. Carlos AS Marques e col.- DST – J bras Doenças Sex Transm 17(1): 66-70, 2005

  Diagnosis and Treatment of Chlamydia trachomatis Infection  KARL E. MILLER, M.D., University of Tennessee College of Medicine- American Family Physician®  Vol. 73/No. 8 (April 15, 2006).

  Chlamydial Genitourinary Infections - Larry I Lutwick, MD - eMedicine - Article Last Updated: Nov 26, 2007.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)