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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO IV - NÚMERO 42 - SETEMBRO DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: MARÇO DE 2009.

CÂNCER DE OVÁRIO: UM DESAFIO À PREVENÇÃO.

       A mamografia é capaz de nos fornecer a imagem de uma lesão suspeita de malignidade – um câncer inicial (?) - antes que a mulher ou o médico possam perceber esta lesão como um nódulo. O exame mamográfico, portanto, é fundamental para o rastreamento e o diagnóstico precoce do câncer de mama, pois torna visível o que ainda não é palpável. De maneira semelhante, o exame de Papanicolaou, associado à colposcopia, é capaz de diagnosticar as lesões pré-malignas e malignas do colo uterino, antes que a paciente apresente qualquer tipo de sintoma. Esses dois procedimentos investigatórios - respectivamente, para o câncer de mama e do colo do útero – fazem parte do que conhecemos por prevenção secundária. O foco da prevenção secundária em oncologia ginecológica é o diagnóstico precoce dos tumores malignos, das lesões pré-malignas e das lesões suspeitas de malignidade, cujo tratamento - menos mutilante para a mulher – é capaz de proporcionar a cura para essa terrível doença. A frase magna da prevenção secundária é: “quando diagnosticado precocemente, o câncer pode ser curado”. Em outras palavras, a prevenção secundária não evita o aparecimento das doenças, mas preocupa-se com o diagnóstico e o tratamento das lesões incipientes.

       Evitar o aparecimento das doenças, promovendo a diminuição de sua incidência na população, é o objetivo da prevenção primária. A vacinação contra a poliomielite, o tétano, o sarampo, a rubéola, etc. são exemplos de prevenção primária. Reduzir ou evitar (quando possível) a exposição a fatores de risco que estão associados às doenças - modificações dos hábitos de vida - é uma outra ferramenta da prevenção primária. O hábito de fumar é responsável por 90% dos casos de câncer de pulmão; por conseguinte, educar a população, no sentido de abolir o fumo (fator de risco), é fundamental para diminuir a mortalidade por esse tipo de câncer. Em ginecologia, a mais importante conquista em prevenção primária das últimas décadas foi a descoberta da vacina contra as cepas oncogênicas do vírus HPV, responsáveis pelo câncer do colo uterino.

       E o câncer de ovário?... Quais são os fatores de risco? É possível diagnosticá-lo precocemente?

Entre as neoplasias ginecológicas, os tumores malignos do ovário são os que apresentam as mais altas taxas de mortalidade. No momento em que
são diagnosticados,
mais de 75% dos casos
encontram-se em
estágios avançados (!)

       Entre as neoplasias ginecológicas, os tumores malignos do ovário são os que apresentam as mais altas taxas de mortalidade. No momento em que são diagnosticados, mais de 75% dos casos encontram-se em estágios avançados (!); isto porque, nas etapas iniciais, essas neoplasias não provocam qualquer sintoma, disseminando-se localmente com facilidade. A ultra-sonografia transvaginal é de utilidade relativa no diagnóstico precoce do câncer ovariano, visto que, nessa situação, nem sempre os ovários estão aumentados ou apresentam alterações morfológicas (!). A dosagem sangüínea da glicoproteína CA 125 mostra-se elevada nas neoplasias de ovário (benignas e malignas), na gravidez, na menstruação e na endometriose; porém, nos estágios iniciais do câncer ovariano os níveis do marcador CA 125 podem ser normais (!). No último congresso (2006) da American Association for Cancer Research, um outro marcador tumoral - Bcl-2 -, dosado na urina, mostrou-se promissor no diagnóstico e monitoragem do câncer ovariano; no entanto, serão necessárias pesquisas mais amplas para avaliar a sua utilidade no diagnóstico precoce.

       São conhecidos diversos fatores de risco para o câncer ovariano; entretanto 90% dos casos ocorrem em mulheres que não apresentam esses fatores (?!).  A idade – acima de 50 anos, para os tumores de linhagem epitelial -; os antecedentes familiares de câncer de ovário, de mama e de colon, indicativos de possíveis mutações genéticas (genes BRCA1, BRCA2, p53, HER2, etc.) de caráter hereditário e o maior número de ciclos ovulatórios, durante a fase reprodutiva, estão entre os fatores de risco mais importantes.

       A prevenção primária e o diagnóstico precoce do câncer de ovário na população geral ainda são processos caros, complexos e de baixa eficiência. Atualmente, a base dessa prevenção requer uma análise individual dos fatores de risco.

     Um trabalho recente (11/03/2009), publicado na revista The Lancet Oncology (Early Online), mostrou os resultados preliminares - mas muito animadores - de uma pesquisa envolvendo mais de duzentas mil mulheres na pós-menopausa, com idades entre 50 e 74 anos, das quais a metade (cerca de 100.000) serviu de "população controle", não sendo submetidas a nenhum procedimento investigatório para câncer de ovário; a outra metade foi dividida em dois grupos com cerca de 50.000 mulheres cada: o primeiro foi submetido, anualmente (no período de 2001 a 2005), à dosagem no sangue do marcador CA125 e também à ultrassonografia transvaginal para estudo dos ovários; o segundo grupo foi submetido exclusivamente à ultrassonografia transvaginal. Os resultados iniciais dessa pesquisa - que se prolongará até 2014 - indicam que a associação da dosagem do CA125 à ultrassonografia transvaginal - realizados anualmente - é mais eficiente no diagnóstico precoce dos tumores ovarianos (90%) do que a ultrassonografia isolada (75%); e que esta associação é capaz de diagnosticar o câncer de ovário em seus estágios iniciais em 50% dos casos, um percentual que é praticamente o dobro o que se observa atualmente. A confirmção desta afirmativa será conhecida em 2015, quando serão publicados os resultados finais desse trabalho.

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    Para saber mais sobre este assunto:

  Câncer de Ovário – Instituto Nacional do Câncer.

  Fatores de risco e patogênese das neoplasias malignas epiteliais de ovário: revisão de literatura– Dra. Caroline Maria Ristow e cols. - Rev. Bras. de Cancerologia - 52(2): 185-195; 2006.

  Rastreamento e diagnóstico das neoplasias de ovário - papel dos marcadores tumorais - Prof. Dr. Francisco José Candido dos Reis - Rev. Bras. Ginecol. Obstet. v.27 n.4  Rio de Janeiro abr. 2005.

  Correlação entre as características ultra-sonográficas e o diagnóstico histológico de 446 tumores ovarianos - Dra. Cleide Mara M. de O. Franzin e cols. - Rev.Assoc.Med.Bras. v.52 n.3  São Paulo maio/jun. 2006.

  Ovarian Câncer - American Association for Cancer Research.

   All About Ovarian Câncer - American Cancer Society.

   Identifying symptoms of ovarian cancer: a qualitative and quantitative study - CR Bankhead - BJOG An International Journal of Obstetrics and Gynaecology - RCOG 2008.

   COMBINING MULTIPLE SERUM TUMOR MARKERS IMPROVES DETECTION OF STAGE I EPITHELIAL OVARIAN CANCER - Zhen Zhang & cols. - Gynecol Oncol. December ; 107(3): 526–531; 2007.

   Sensitivity and specificity of multimodal and ultrasound screening for ovarian cancer, and stage distribution of detected cancers: results of the prevalence screen of the UK Collaborative Trial of Ovarian Cancer Screening (UKCTOCS) - Usha Menon & cols. - The Lancet Oncology, Early Online Publication, 11 March 2009.

 

Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)