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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO IV - NÚMERO 41 - AGOSTO DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: JUNHO DE 2009.

GINECOLOGIA PSICOSSOMÁTICA

         A pseudociese (falsa gravidez ou gestação imaginária; do grego pseudo = falso e kyesis = gravidez) é um ótimo exemplo de como as emoções podem interferir nas funções de diversos órgãos e sistemas, gerando distúrbios físicos. Nesta situação – que não deve ser confundida com fingimento deliberado -, o desejo de estar grávida é tão intenso que a mulher pára de menstruar, sente enjôos, tem “desejos”, mostra-se com o abdome aumentado, produz leite, diz sentir os movimentos do feto e, orgulhosamente, veste-se como uma gestante... Apesar da exteriorização de todos esses comemorativos, o útero mantem-se vazio – simplesmente não há gravidez (!). As alterações observadas na pseudociese – que incluem anormalidades nas dosagens de alguns hormônios - revelam a complexidade das interrelações psiconeuro-endócrinas a que está sujeito o organismo feminino.

        As emoções e os sentimentos – amor, ódio, alegria, raiva, pavor, paixão, tristeza, etc. – têm origem num conjunto de estruturas cerebrais conhecidas como sistema límbico. Este sistema, que também é responsável pela memória, mantém conexões bi-direcionais tanto com áreas mais primitivas do cérebro – que controlam as funções neurovegetativas, como respiração, batimentos cardíacos, movimentos intestinais, etc. – quanto com as regiões mais nobres do sistema nervoso – responsáveis pelo pensamento abstrato (imaginação), pelo raciocínio matemático, etc.  Uma das estruturas que compõem o sistema límbico (o hipotálamo) conecta-se com a mais importante glândula do nosso corpo, a hipófise, cujos hormônios regulam o funcionamento de outras glândulas (supra-renais, tiróide, ovários, etc.). Esse conjunto de interligações neuro-hormonais tem por objetivo promover a adaptação do organismo frente a situações críticas (estressantes), sejam elas físicas, psíquicas (conflitos intra e interpessoais) ou sociais. O esforço adaptativo geralmente supera as situações estressantes, restabelecendo o equilíbrio mente/corpo. Entretanto, quando o estresse se mantém por tempo prolongado, ou quando se esgotam os mecanismos de  adaptação, a desarmonia psicofísica se manifesta clinicamente através de doenças ou distúrbios orgânicos. 

A tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a ressonância magnética funcional (FMRI) permitem observar, em detalhes - e em tempo real -, o funcionamento do cérebro humano, estabelecendo novas bases para a compreensão da influência das emoções sobre o processo de adoecer.

        Em Ginecologia - considerando os estágios bioevolutivos da mulher (infância, puberdade, gravidez, puerpério, amamentação, menopausa, etc.); considerando a sua história afetiva consigo mesma (auto-estima), com a família e com o sexo oposto; considerando, também, as variantes socioeconômicas e culturais (religião) a que ela está submetida -, são inúmeras as situações em que o estresse é o agente causal ou facilitador de patologias. A amenorréia (ausência de menstruação), a galactorréia (produção extemporânea de leite), a frigidez, a dor pélvica crônica, a candidíase de repetição, as crises de herpes genital, a infertilidade sem causa aparente, as disovulias, a vulvodinia (vestibulite), a menóstase (parada súbita da menstruação), a dismenorréia (cólicas menstruais), certos abortamentos, o vaginismo, a TPM, a anorgasmia (ausência de orgasmo) e os desconfortos do climatério (menopausa) podem ser – em maior ou menor grau - manifestações clínicas de conflitos emocionais subjacentes. 

       A noção de que o corpo e a mente são partes indissociáveis de um mesmo organismo e que a saúde é fruto do equilíbrio entre as partes do indivíduo - e deste com o meio ambiente - já constava das observações de Hipócrates, no século IV a.C. Hoje, a psiconeuroimunologia e a psiconeuroendocrinologia reeditam – e ratificam - aquele conceito hipocrático, apoiando-se nos mais recentes avanços tecnológicos. A tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a ressonância magnética funcional (FMRI) permitem observar, em detalhes - e em tempo real -, o funcionamento do cérebro humano, estabelecendo novas bases para a compreensão da influência das emoções sobre o processo de adoecer. A Medicina da era digital está redescobrindo o óbvio: a história existencial (emocional) do(a) doente é tão importante quanto a doença que o(a) atinge. A mulher que o diga (!).

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  Para saber mais sobre este assunto:

   VULVOVAGINITES RECORRENTES: UMA DOENÇA PSICOSSOMÁTICA? - Sílvia N. Cordeiro et al. - DST – Jornal Bras. Doenças Sex. Transmissíveis 16(1):45-51, 2004.

   Estados hiperprolactinêmicos – inter-relações com o psiquismo - ELIANA A. P. NAHAS et al. - Revista de Psiquiatria Clínica, 33 (2); 68-73, 2006.

   Ser mulher dói: relato de um caso clínico de dor crônica vinculada à construção da identidade feminina -  Josiane Bocchi et al. - Revista latinoamericana Psicopatologia Fundamental, VI, 2, 26-35, 2003.

   Psicossomática do prazer feminino - Amparo Caridade - Revista Brasileira de Sexualidade Humana, vol. 10(1), 1999.

   Livro: Psicossomática: de Hipócrates à psicanálise - Rubens Marcelo Volich - Publicado por Casa do Psicólogo, 2000.

   Livro: Distúrbios psicossomáticos - GiancarloTrombini - Publicado por Edicoes Loyola.

   Livro: Emoções que adoecem - Roberta R. M. dos Santos Cardoso - Publicado por Vetor Editora.

   Livro: Psychological Challenges to Obstetrics and Gynecology: The Clinical Management - Jayne Cockburn & Michael Pawson - Publicado por Springer, 2007.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)