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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO IV - NÚMERO 39 - JUNHO DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: MARÇO DE 2009.

OS ANTICONCEPCIONAIS E O MEDO DE ENGORDAR

       A prática clínica, em ginecologia e obstetrícia, está repleta de casos semelhantes...

       A adolescente, estudante da primeira série do segundo grau, chega ao consultório (ambulatório) trazendo no rosto uma indisfarçável expressão de preocupação. Perguntada sobre o motivo da consulta, ela informa que a menstruação está atrasada (dez dias); que, há mais de uma semana, tem sentido as mamas doloridas e enjôos matinais (ao escovar os dentes). À medida que a entrevista evolui, ela relata que teve a primeira experiência sexual há seis meses, e que, desde então, mantém relações com o namorado, uma ou duas vezes por semana. Questionada se, nesse intervalo, fez uso de algum método anticoncepcional – camisinha, pílulas, etc. –, ela responde:

       - No início, ele usava camisinha, mas reclamava. Aí, parou de usar. Pílula, eu não uso. Tenho medo de engordar.

       Diante dos sinais e sintomas de uma possível gestação, o doutor pede um exame de laboratório. Na semana seguinte, ela retorna ao consultório, trazendo consigo o resultado que confirma a suspeita: POSITIVO. Superadas as turbulências sociofamiliares de uma gravidez não programada, inicia-se a assistência obstétrica. Ao término do pré-natal, a despeito das orientações recebidas, a jovem constata que o seu peso aumentou - em 23 quilos (!) - nos últimos oito meses. A seqüência de registros na ficha da paciente faz o médico assistente lembrar-se de duas frases que, com o passar do tempo, transformaram-se numa ironia: “Pílula, eu não uso. Tenho medo de engordar” (!!).

Nos dias atuais, ter medo de engordar usando os “as pílulas” de última geração soa tão absurdamente quanto ter medo de lavar a cabeça durante a menstruação(!).

       O temor dessa jovem seria justificável se ainda estivéssemos na década de 1960, quando foram lançados os primeiros anticoncepcionais hormonais combinados orais. Naquela época, a dosagem hormonal em cada comprimido era extremamente alta (dez vezes mais estrogênios e cem vezes mais progestagênios do que as existentes nas formulações atuais), o que provocava muitos efeitos colaterais como náuseas, cefaléia, dor mamária, tromboses venosas, embolias, acne e ... ganho de peso. Nos últimos 40 anos, porém, essa categoria de medicamentos evoluiu de forma extraordinária. As mudanças mais importantes foram: a progressiva redução em seu conteúdo estrogênico – alcançando o nível recorde dos 15 μg (quinze microgramas) de etinilestradiol por comprimido - e a síntese de novos progestagênios (drosperinona, clormadinona, dienogest, etc.), dotados de propriedades metabólicas mais seletivas. A diminuição na dose diária de etinilestradiol (menos de 35 μg) reduziu substancialmente a incidência de reações adversas como enjôos, sensibilidade mamária e acidentes tromboembólicos. Os novos progestagênios, por sua vez, além de não possuírem as ações indesejáveis de seus congêneres do passado (retenção de água e aumento do peso), agregam propriedades benéficas sobre diversos órgãos e tecidos.

       A maioria das gestações que ocorrem entre as adolescentes, com menos de 16 anos de idade, não é planejada. Entre as razões para este fato, podemos citar: falta de informação – no lar e na escola – sobre os métodos anticoncepcionais, dificuldade de acesso aos contraceptivos, uso incorreto dos métodos disponíveis, negligência, pressão psicológica (chantagem emocional) do namorado, pensamento mágico – “não vai acontecer comigo” -, necessidade de auto-afirmação quanto à sexualidade, influência da mídia (erotização precoce e irresponsável), etc. A prevenção da gravidez indesejada na adolescência requer ações educativas por parte dos pais, professores e médicos, cabendo às instituições governamentais de saúde, além de informar, facilitar – pela gratuidade - o acesso dos jovens aos métodos contraceptivos.

       Nos dias atuais, ter medo de engordar usando os “as pílulas” de última geração soa tão absurdamente quanto ter medo de lavar a cabeça durante a menstruação(!). Por incrível que pareça, algumas adolescentes ainda conservam as mesmas crenças que, há 44 anos, assustavam suas avós.

NOTA: Alguns trabalhos científicos demontraram que as usuárias de contraceptivos injetáveis trimestrais, contendo acetato de medroxiprogesterona, tiveram um ganho ponderal entre 4,4 kg e 5,1 kg em períodos de uso que variaram de três a cinco anos. Não foram observadas alterações de peso entre as usuárias de anticoncepcionais combinados orais de baixa ou ultrabaixa dosagem hormonal.

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  Para saber mais sobre este assunto:

   ANTICONCEPÇÃO - Manual de Orientação de FEBRASGO - 2004 - via SGGO.

   Combination Estrogen–Progestin Contraceptives and Body Weight: Systematic Review of Randomized Controlled Trials - Maria F. Gallo et al - OBSTETRICS & GYNECOLOGY - VOL. 103, NO. 2, FEBRUARY 2004.

 

Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)