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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO IV - NÚMERO 37 - ABRIL DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: NOVEMBRO DE 2008.

PREVENÇÃO DO CÂNCER DE ENDOMÉTRIO

       O endométrio é o tecido que forra o interior do útero e que, sob a influência dos hormônios ovarianos (estrogênio e progesterona) tem a sua camada mais superficial renovada a cada ciclo menstrual. A função do endométrio é acolher e nutrir o embrião nos estágios iniciais da gravidez. O estrogênio – secretado na fase pré-ovulatória – é responsável pela reconstrução e crescimento do endométrio após a menstruação. A progesterona, produzida na fase pós-ovulatória, como o nome indica (progest = pró-gestação), prepara o interior do útero para receber o óvulo recém-fecundado. Não havendo fecundação, os preparativos se desfazem (menstruação), reiniciando-se um novo ciclo.

       A progesterona é um fator limitante da espessura do endométrio promovida pelo estrogênio. Quando não há ovulação, portanto, quando a ação do estrogênio não é limitada pela da progesterona, a espessura endometrial tende a ser maior que o normal. A persistir a ação estrogênica isolada por longo tempo, podem surgir alterações patológicas como pólipos e hiperplasias (crescimento excessivo). As hiperplasias atípicas geralmente antecedem o câncer de endométrio.

       Cerca de 150.000 novos casos de câncer de endométrio são diagnosticados anualmente em todo o mundo. Destes, 42.000 têm como epílogo a morte de suas portadoras.  

       A grande maioria dos casos de câncer de endométrio (96%) ocorre após os 50 anos de idade, acometendo principalmente (mais de 85%) mulheres da raça branca, cuja idade da menopausa é igual ou superior a 51 anos. Diversos estudos estatísticos mostram uma associação positiva entre essa neoplasia e a obesidade, o diabetes, a hipertensão arterial, o câncer de mama, a anovulação crônica (ovários policísticos), os tumores ovarianos produtores de estrogênio, além da predisposição genético-familiar. Na maioria dessas situações, o que se observa é uma exposição prolongada ao estrogênio sem o antagonismo da progesterona, um fato também observado na pré-menopausa – entre os 45 e 50 anos – em que os ciclos anovulatórios tornam-se cada vez mais freqüentes. Esse tipo de carcinoma endometrial, estrógeno-dependente , é conhecido como tipo I; ocorre numa faixa etária mais baixa (pré e perimenopausa), é bem diferenciado e tem bom prognóstico. O tipo II não tem associação com o hiperestroge- nismo, ocorre - habitualmente - em mulheres com mais de 60 anos, é mais agressivo e de pior prognóstico.

       Ao contrário do que se pensa, na pós-menopausa, os ovários não param de produzir hormônios. Há uma queda muito importante na produção de estrogênio, mas, ao mesmo tempo, há um incremento na secreção de hormônios masculinos. Estes, por sua vez, transformam-se em estrogênio no tecido adiposo, razão pela qual as pacientes obesas pouco – ou nada - se queixam das “ondas de calor” no climatério.

       Como a hiperplasia antecede o câncer do endométrio em até 10 anos, diagnosticando precocemente e tratando a hiperplasia estaremos evitando grande número de casos de câncer. A prevenção da hiperplasia deve iniciar-se na pré-menopausa – quando os ciclos menstruais tornam-se mais espaçados e irregulares – com a administração periódica (10 dias por mês) de pequenas doses de progestógenos (hormônios com características semelhantes às da progesterona). Nas portadoras de ovários policísticos, a regularidade menstrual (e a prevenção da hiperplasia endometrial) pode ser alcançada com o uso regular de anticoncepcionais combinados orais. Na pós-menopausa, a medida da espessura do endométrio pela ultra-sonografia transvaginal é fundamental para o diagnóstico precoce, integrando o “check-up” ginecológico anual. Quando essa medida ultrapassa 5 mm, outros métodos de investigação (histeroscopia, com ou sem biópsia) serão utilizados para esclarecimento. Nas pacientes climatéricas, que possuem útero, cujos sintomas justifiquem a terapia hormonal, esta será sempre feita com medicamentos que associem progestógenos em sua formulação.

       O principal sintoma da hiperplasia e do câncer de endométrio é o sangramento uterino na pós-menopausa – entenda-se: aquele que ocorre passado um ano ou mais após a última menstruação. Mas, nem todo sangramento nesta fase da vida da mulher é indicativo de malignidade. Diante desse sintoma, o melhor a fazer é não negligenciá-lo, e procurar o ginecologista. Como em tantas outras patologias, quanto mais precoce for o diagnóstico, mais eficaz será o tratamento e a cura.

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Para saber mais sobre este assunto:

   Comparação entre os Achados Ultra-sonográficos, Histeroscópicos e Histopatológicos no Sangramento Uterino da Pós-menopausa - Adriana Scavuzzi & cols. RBGO - v. 25, nº 4, 2003.

   AVALIAÇÃO DA ACURÁCIA DA HISTEROSCOPIA DIAGNÓSTICA NO ESTUDO DA CAVIDADE UTERINA E DO ENDOMÉTRIO - WALQUÍRIA QUIDA SALLES PEREIRA PRIMO & cols. - Brasília Med 2006; 43(1/4):32-39.

   Vídeo-histeroscopia da imagem endometrial alterada: uma avaliação crítica - Laura Osthoff & cols. - Rev. Col. Bras. Cir. vol.34 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2007.

   Terapia de reposição hormonal e o câncer do endométrio - Naidilton L.C. de Araújo Jr. & col. - Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(11):2613-2622, nov, 2007

   Obesity, Endogenous Hormones, and Endometrial Cancer Risk: A Synthetic Review - Rudolf Kaaks & cols. - Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention -  Vol. 11, 1531–1543, December 2002. 

   Endometrial Carcinoma - William T Creasman, MD & cols. - eMedicine - Article Last Updated: Jul 9, 2007.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)