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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO III - NÚMERO 36 - MARÇO DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: MARÇO DE 2009.

DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS (II): DOR

       As relações sexuais contêm um enorme potencial de prazer. Homem e mulher, corpos e mentes, sentimentos e sensações, “yin” e “yang”..., as dualidades se unificam – se completam mutuamente - num encontro harmonioso que, sob a ótica da filosofia tântrica, chega a alcançar dimensões divinas. Mas, na prática, nem sempre é isso o que acontece. Para algumas mulheres, o coito, ao invés de trazer gratificação sensorial e emocional, é marcado pelo desconforto e pela dor.

       Na linguagem médica, o termo empregado para designar a relação sexual dolorosa é dispareunia – palavra de origem grega que significa união difícil e/ou dolorosa. A dispareunia é um sintoma para o qual concorrem causas físicas (orgânicas) e psíquicas (emocionais).

       Podemos dividir as causas orgânicas do coito doloroso em superficiais e profundas. A pele da vulva e a mucosa do intróito vaginal possuem inúmeras terminações nervosas, o que lhes confere uma extrema sensibilidade. As infecções vulvovaginais (herpes, candidíase, etc.), as inflamações das glândulas de Bartholin, bem como a falta de lubrificação local (comum na pós-menopausa) podem tornar a penetração absolutamente intolerável. Entre as causas da dispareunia profunda estão a doença pélvica inflamatória, a endometriose, a retroversão uterina fixa, as aderências pélvicas, os tumores e cistos ovarianos, a congestão venosa, etc. Nestes casos, a dor é percebida pela mulher quando o pênis toca (repetidamente) o fundo da vagina, não sendo raro que ela peça ao parceiro que interrompa a relação – ou que a termine o mais rápido possível. A identificação da(s) causa(s) e seu tratamento são fundamentais para devolver à mulher (leia-se, ao casal) o ingrediente básico das relações sexuais: o prazer. A permanência da dor poderá prejudicar todas as fases da resposta sexual feminina, concorrendo para a instalação de outras disfunções como a inibição do desejo, a falta de excitação e a ausência de orgasmo, iniciando um ciclo vicioso.

       O ser humano é psicossomático. O físico e o emocional trafegam numa estrada de mão dupla, imprimindo influências recíprocas. Se, por um lado, distúrbios orgânicos afetam o nosso estado emocional; por outro, nosso estado de espírito tem grande influência sobre o funcionamento do organismo. A sexualidade feminina – muito mais que a masculina – está sujeita a sutis turbulências psicológicas... A associação entre sexo/dor, dor/medo, sexo/medo geralmente está presente numa disfunção conhecida como vaginismo.

Entende-se por vaginismo a contratura involuntária e espástica (intensa e prolongada) dos músculos que se situam na entrada da vagina, tornando difícil – ou mesmo impossível – a penetração.

       Entende-se por vaginismo a contratura involuntária e espástica (intensa e prolongada) dos músculos que se situam na entrada da vagina, tornando difícil – ou mesmo impossível – a penetração. O componente básico do vaginismo é o medo, pois não há nenhuma alteração anatômica ou patologia orgânica. A contração perineal seria uma espécie de “reflexo de defesa”, cujas origens estariam nas experiências traumáticas anteriores (primeiras relações dolorosas, estupro), na educação severa (punitiva) em relação ao sexo, na crença equivocada de que a vagina é muito pequena (desconhecimento do próprio corpo) ou de que o coito é um ato sujo e agressivo... Enfim, vivências e concepções negativas estão na raiz do problema, causando ansiedade, medo, contração e dor.

       O tratamento do vaginismo envolve suporte psicológico, educação sexual (informações sobre anatomia, fisiologia, etc.) e exercícios que visam corrigir o reflexo contratural exacerbado.  A contração e o relaxamento conscientes da musculatura do períneo (exercícios de Kegel) e o uso de dilatadores de plástico de diâmetros progressivos estão entre os recursos mais comumente empregados na condução desses casos. A participação ativa do parceiro, durante o processo terapêutico, é muito importante, pois reforça a autoconfiança e a motivação da paciente.

       O ato sexual deve ser, para a mulher e seu parceiro, um encontro com as diversas expressões do prazer. Nessa  celebração dos sentidos – e do sentir – não há lugar para a dor.

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  Para saber mais sobre este assunto:

   Abordagem das disfunções sexuais femininas - Lúcia Alves da Silva Lara et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.30 no.6 Rio de Janeiro June 2008.

   Aspectos diagnósticos e terapêuticos das disfunções sexuais femininas - CARMITA H. N. ABDO - Revista de Psiquiatria Clínica, 33 (3); 162-167, 2006.

   ASPECTOS FISIOLÓGICOS E DISFUNCIONAIS DA SEXUALIDADE FEMININA - Heitor Hentschel et al. - Revista do Hospital de Clínicas de Porto Aalegre;26(2) 2006

   Descobrimento sexual do Brasil: para curiosos e estudiosos. Carmita Helena Najjar Abdo - Publicado por Grupo Editorial Summus, 2004.

   Livro: Disfunções Sexuais - Cassandra Pereira França - Publicado por Casa do Psicólogo, 2005.

   Sexualidade feminina: questões do cotidiano das mulheres - Wânia R. Trindade e col. - Texto & Contexto - Enfermagem, vol.17 no.3 Florianópolis July/Sept. 2008.

   SEXUALIDADE NA GESTAÇÃO: MITOS E TABUS - Andréa Lúcia G. C. T. Flores e col. - Revista Eletrônica de Psicologia - Ano I Número 1, Julho de 2007.

   Sexualidade no climatério - Lucas Vianna Machado e col. - http://www.lucasmachado.com.br/.

   Adaptação transcultural do Female Sexual Function Index - Rodolfo de Carvalho Pacagnella e cols. - Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(2):416-426, fev, 2008.

   O Ginecologista e a Sexualidade - Nelson Vitiello - Revista Brasileira de Sexualidade Humana 4(2):1993.

   Avaliação da capacidade orgástica em mulheres na pós-menopausa - Sonia Regina L. Penteado et al. - Revista da Associação Médica Brasileira, vol.50 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2004.

   Women's sexual dysfunction: revised and expanded definitions - Rosemary Basson - Canadian Medical Association Journal, May 10, 2005; 172 (10).

   Diagnosis and Treatment of Female Sexual Dysfunction - JENNIFER E. FRANK et al. - American Academy of Family Physicians - Volume 77, Number 5 ◆ March 1, 2008.

  Assessment & management of sexual problems in women - Kevan Wylie - Journal of The Royal Society of Medicine, Volume 100, Number 12, Pp. 547-550, 2007.

   Livro: Women's sexual function and dysfunction - Irwin Goldstein et al. - Publicado por Taylor & Francis, 2006.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)