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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO III - NÚMERO 35 - FEVEREIRO DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: NOVEMBRO DE 2008.


CANDIDÍASE VAGINAL CRÔNICA

       A candidíase vaginal é uma micose (infecção por fungos do gênero Candida) que afeta 75% da mulheres durante o período reprodutivo; isto é, três em cada quatro mulheres terão um episódio de candidíase em algum momento de suas vidas. Os principais sintomas desta micose são a coceira e a ardência vulvares, acompanhadas por um corrimento branco e grumoso, sem odor, semelhante nata de leite. No exame ginecológico, a vulva apresenta-se avermelhada, os pequenos lábios edemaciados (inchados), além de pequenas fissuras locais, provocadas pelo ato de coçar. O quadro clínico é típico e, na maioria das vezes, dispensa a confirmação laboratorial. Entretanto, nos casos recorrentes, há necessidade de se identificar a espécie causadora em laboratório, visando o seu tratamento específico.

        Existem várias espécies de Candida (C.  albicans, C.  tropicalis, C. glabrata, etc.), sendo a Candida albicans a mais comumente encontrada (90%) nas infecções genitais.  Esses fungos podem estar presentes no intestino e na vagina sem causar nenhum problema, vivendo em “equilíbrio ecológico” com a flora local. Cerca de 10 a 20% das mulheres hospedam espécies de Candida em suas vaginas sem apresentarem quaisquer sintomas. Porém, em situações de extrema deficiência imunológica, como na AIDS, esses fungos podem se disseminar por todo o organismo, afetando os pulmões, baço, rim, fígado, coração e cérebro.

 

A coceira intensa, a ardência, a vermelhidão
e o edema da genitália, associadas a um corrimento branco, inodoro, com grumos
que lembram nata de leite são os principais sintomas - porém não exclusivos - da candidíase vulvovaginal.

 

 

Quatro ou mais episódios por ano caracterizam a chamada candidíase recorrente.

        A gravidez, o diabetes, o uso de anticoncepcionais hormonais, antibióticos, corticosteróides (corticóides) e quimioterápicos são fatores que podem contribuir para a proliferação dessas leveduras. Os três primeiros aumentam (indiretamente) a acidez vaginal, criando um ambiente propício para a multiplicação micótica; os antibióticos alteram o “equilíbrio ecológico” vaginal, destruindo a flora protetora; os quimioterápicos – assim como os imunossupressores, utilizados em pacientes transplantados para evitar a rejeição - diminuem as defesas do organismo, relativizando o potencial patogênico desses fungos.

        Entende-se por candidíase recorrente ou de repetição – aqui, chamada crônica – a ocorrência de quatro ou mais episódios anuais da infecção, com todo o seu cortejo sintomático. Em muitos desses casos, os sintomas aparecem sempre no período pré-menstrual, coincidindo com a TPM e caracterizando a chamada candidíase cíclica.

        Atingindo cerca de 5% das mulheres em idade fértil, esta entidade é extremamente frustrante, tanto para as pacientes - que não conseguem obter a cura para o problema - quanto para os ginecologistas que, apesar de todos os estudos e avanços terapêuticos, ainda não têm uma completa compreensão sobre sua(s) causa(s) e, portanto, ainda não podem oferecer um tratamento definitivo. Quando algum dos fatores predisponentes (citados anteriormente) está presente, a investigação diagnóstica e a conduta terapêutica tornam-se mais fáceis. Entretanto, em muitos casos de candidíase recorrente, nenhum daqueles fatores é encontrado.

         Existem várias teorias científicas que tentam explicar a recorrência dessa micose; nenhuma delas, porém, o faz de maneira completa e satisfatória. Alguns acreditam que a origem das reinfecções está nos focos intestinais... Outros crêem que é o contato sexual o fator precipitante – ATENÇÃO: A CANDIDÍASE NÃO É UMA DOENÇA SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEL ! Outros pensam que a mulher, mesmo depois de adequadamente tratada, manteria alguns focos residuais na vagina, e que estes poderiam voltar a se desenvolver... Mais recentemente, acredita-se que a recorrência da candidíase envolva mecanismos imunológicos específicos (próprios de cada paciente).

        Atualmente – e até que este desafio seja vencido pela Medicina -, o tratamento da candidíase recorrente baseia-se na administração prolongada (por seis meses) dos mesmos antimicóticos (cetoconazol, itraconazol e fluconazol) utilizados na candidíase aguda.

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Para saber mais sobre este assunto:

    Candidíase vulvovaginal recorrente: fisiopatogênese, diagnóstico e tratamento - Iara Moreno LINHARES e cols. - Rev. Ciênc. Méd., Campinas, 14(4):373-378, jul./ago., 2005.

   Sobre o diagnóstico da candidíase vaginal - Prof. Dr. José Antonio Simões - Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.27 no.5 Rio de Janeiro May 2005.

    Candidíase vulvovaginal: sintomatologia, fatores de risco e colonização anal concomitante - Antônio A. R. de Holanda e cols. - Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.29 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2007.

   Avaliação da resposta imune celular em pacientes com candidíase recorrente - Lucas P. Carvalho e cols. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.36 no.5 Uberaba Sept./Oct. 2003

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)