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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO III - NÚMERO 34 - JANEIRO DE 2006. ÚLTIMA REVISÃO: NOVEMBRO DE 2008.

SECREÇÕES MAMILARES ANORMAIS

       Entre as queixas relativas às glândulas mamárias, as secreções mamilares anormais ocupam o terceiro lugar em freqüência, depois dos nódulos e da dor.

       O adjetivo “anormal” deve ser interpretado com muito cuidado e equilíbrio, pois existem pelo menos duas situações em que a secreção mamária (em ambos os sexos) é apenas um reflexo das influências hormonais transitórias a que estas glândulas estão submetidas em certos períodos do desenvolvimento humano. É o caso do “leite de bruxa”; uma secreção mamilar apresentada pelos recém-nascidos e que tem como causa os elevados níveis hormonais produzidos pela placenta. Com a diminuição daqueles hormônios, em duas semanas, o “leite de bruxa” desaparece naturalmente, sendo condenável a expressão mamária dos recém-natos. Na adolescência, a avalanche hormonal própria desse período também pode ser responsável por um fenômeno semelhante; situação de duração limitada – de resolução espontânea - e que, portanto, não requer qualquer tipo de tratamento.

       Por motivos óbvios, o público feminino – de uma maneira geral - acredita que a única secreção mamilar “normal” é o leite, exclusivamente excretado após o parto. Entretanto, no intervalo entre as gestações, as mamas não ficam completamente em repouso, estando sujeitas aos influxos cíclicos dos hormônios ovarianos (mastalgia pré-menstrual) e aos estímulos físicos dos mamilos (erógenos ou, até mesmo, por atrito com um sutiã mal ajustado). Fora do período gestacional e de aleitamento, a expressão (delicada) dos mamilos pode dar saída a uma diminuta quantidade – uma ou duas gotas - de secreção em 50 a 80% das mulheres que já tiveram filhos. Na maioria das vezes, este tipo de achado não está associado ao câncer de mama, porém deve ser objeto de avaliação clínica para o seu esclarecimento.

O mamilo possui de 15 a 20
orifícios de saída dos
ductos lactíferos.

      As características das secreções mamilares podem variar quanto à cor – transparente, branca, amarela, marrom, verde-escuro, sanguinolenta, etc. -, quanto à consistência – mais ou menos espessa -, quanto à quantidade, quanto ao aparecimento – espontâneo ou forçado pela expressão - e quanto à uni ou bilateralidade, ou seja, afetando apenas uma ou ambas as mamas. Secreções unilaterais, transparentes (cristalinas como água) ou sanguinolentas, devem ser criteriosamente investigadas, pois podem ser um sinal de alerta quanto ao crescimento de um tumor (benigno ou maligno) no interior de um ducto lactífero.

      A associação da descarga mamilar com outras queixas mamárias (dor e/ou nódulo); com o uso de certos medicamentos (anticoncepcionais, tranqüilizantes, antiulcerosos, anti-hipertensivos, etc.); com outros sintomas (febre, dores de cabeça freqüentes, visão dupla ou turva) são aspectos que irão orientar o diagnóstico. 

      A galactorréia – produção de leite fora do período gravídico-puerperal – ocorre por um aumento dos níveis plasmáticos de prolactina (hormônio produzido pela hipófise). Essa alteração pode ter causas diversas, incluindo a estimulação mecânica dos mamilos, o uso de medicamentos, o mau funcionamento da tiróide (hipotireoidismo), tumores hipofisários, etc.

      A história clínica, o exame físico, as dosagens hormonais, a análise citológica da secreção, a mamografia, a ultra-sonografia e a tomografia computadorizada do cérebro são recursos valiosos para o esclarecimento das causas das secreções mamilares anormais; ponto fundamental para a instituição do tratamento mais adequado (clínico ou cirúrgico).
A expressão (delicada) dos mamilos faz parte do auto-exame das mamas.

A expressão (delicada) dos mamilos faz parte do auto-exame das mamas – que deve ser realizado (somente) uma vez por mês, uma semana após o término da menstruação. A descarga mamilar, repito, geralmente não está relacionada ao câncer da mama; entretanto, a sua constatação não pode ser negligenciada.

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  Para saber mais sobre este assunto:

  Citologia do derrame papilar - Carlos Eduardo de Andrea & cols. - J. Bras. Patol. Med. Lab. vol.42 no.5 Rio de Janeiro Oct. 2006.

  Breast Ductal Secretions: Clinical Features, Potential Uses, and Possible Applications - Julie E. Lang, MD - Cancer Control, October 2007, Vol. 14, No. 4

  Nipple Discharge: A Sign of Breast Cancer? - T Richards &cols. - Annals of The Royal College of Surgeons of England, 2007 March; 89(2): 124–126.

  Breast, Nipple Discharge Evaluation - Edward Azavedo, MD, PhD - eMedicine - Article Last Updated: May 30, 2007.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)