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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO III - NÚMERO 31 - OUTUBRO DE 2005. ÚLTIMA REVISÃO: ABRIL DE 2009.

OVÁRIOS POLICÍSTICOS

       Antes de tudo, um pouco de história:

       Em 1935, dois médicos de Chicago – Dr. Irving Stein e Dr. Michael Leventhal – descreveram um conjunto de sinais e sintomas que afetava igualmente sete de suas pacientes, quatro das quais eram obesas. Todas apresentavam amenorréia (ausência de menstruação), hirsutismo (excesso de pêlos na face, tórax, abdome e coxas), infertilidade e ovários aumentados de volume à pneumopelvigrafia (um desconfortável exame radiológico que, utilizado naquela época, tornou-se obsoleto com o advento da ultrassonografia). As pacientes foram submetidas à cirurgia em que uma parte de seus ovários foi retirada para ser estudada ao microscópio. Os exames apenas revelaram a existência de múltiplos cistos foliculares abaixo da superfície ovariana. Surpreendentemente, depois de operadas, elas passaram a ter menstruações regulares e duas conseguiram engravidar. Em 1949, o Dr. Joseph (Joe) Vincent Meigs, professor de Ginecologia da Universidade de Harvard, batizou a síndrome dos ovários policísticos (SOP) com os nomes daqueles pesquisadores: Stein e Leventhal. Naquele tempo, em que muito pouco se sabia sobre a fisiologia da ovulação, o tratamento cirúrgico - retirada de um terço de ambos os ovários – passou a ser considerado como o mais apropriado para restituir a regularidade das menstruações – e a fertilidade - das mulheres que se enquadravam naquele diagnóstico (uma conduta que, atualmente, sofre inúmeras críticas e restrições).

       Nos últimos 70 anos, os critérios para o diagnóstico da SOP passaram por duas revisões de caráter internacional: a primeira em 1990, na cidade de Bethesda (Estados Unidos) e a segunda, em maio de 2003, em Roterdam (Holanda). Nesta última reunião, os maiores expoentes da endocrinologia ginecológica chegaram à conclusão de que a ultrassonografia, isoladamente, não faz o diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos, pois 25% das pacientes com este achado ultrassonográfico menstruam e ovulam regularmente, não apresentando sinais clínicos de hiperandrogenismo (excesso de pêlos, acne, etc.); sendo lamentável, portanto, que estas mulheres sintam-se ameaçadas pelo fantasma da infertilidade, ou pior ainda, que se submetam a tratamentos absolutamente desnecessários, tendo por base apenas o resultado deste exame.

A ultra-sonografia, isoladamente, não faz o diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos, pois 25% das pacientes com este achado
ultrassonográfico menstruam e ovulam regularmente!

       Para que uma paciente seja considerada como portadora da síndrome de Stein e Leventhal é necessário que o quadro clínico preencha pelo menos dois dos seguintes critérios: 1- presença de 12 (doze) ou mais cistos foliculares, com menos de 9 mm de diâmetro, em ambos os ovários; 2 – hiperandrogenismo (aumento dos hormônios masculinos, manifestado pelo excesso de pêlos, pele oleosa e acne) e 3 - sinais de anovulação (menstruação esporádica ou ausente), devendo ser descartados outros distúrbios hormonais.

       Dependendo das circunstâncias – idade, desejo de engravidar ou não, etc. -, o tratamento a ser instituído terá por objetivo regularizar as menstruações, reverter os sinais de hiperandrogenismo, corrigir a anovulação (possibilitar a gravidez) e prevenir outros problemas que – no longo prazo – estão associados a esta síndrome (diabetes, doenças cardiovasculares e câncer de endométrio). É importante ressaltar que o controle do peso (tratamento da obesidade) pode, por si só, reverter algumas das alterações hormonais observadas na SOP.

       A ovulação - fenômeno central do ciclo menstrual e pré-requisito para a fertilidade - está sob a influência de dezenas de fatores que mantêm, entre si, uma complexa e delicada relação de reciprocidade. Desde os tempos de Stein e Leventhal, acumulamos uma enorme bagagem de conhecimento sobre os mecanismos neuroendócrinos e moleculares (receptores celulares) que regem o funcionamento ovariano. Entretanto, quanto mais nos aprofundamos nas pesquisas sobre esse tema, quanto mais avançamos na direção de sua completa compreensão, maior é a certeza de que ainda temos muito que aprender.

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  Para saber mais sobre este assunto:

  Síndrome dos Ovários Policísticos: Mito ou Realidade? Uma visão unitária da fisiopatologia ovariana e crítica ao “Consenso de Rotterdam 2003”. Prof. Dr. Lucas Viana Machado.

  Ovários policísticos, resistência insulínica e síndrome metabólica - Edmund Chada Baracat et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.29 no.3 Rio de Janeiro Mar. 2007.

  Síndrome dos ovários policísticos, síndrome metabólica, risco cardiovascular e o papel dos agentes sensibilizadores da insulina - Regina do Carmo Silva et al. - Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, vol.50 no.2 São Paulo Apr. 2006.s

  Prevalência da síndrome metabólica em portadoras da síndrome dos ovários policísticos - Laura O. B. F. Costa et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol. 29 no. 1 Rio de Janeiro Jan. 2007.

  Síndrome da anovulação crônica hiperandrogênica e transtornos psíquicos - José Arnaldo S. Ferreira et al. - Revista de Psiquiatria Clínica, vol.33 no.3 São Paulo 2006.

  Neoplasias Associadas à Síndrome dos Ovários Policísticos - Poli Mara Spritzer et al. - Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, vol 49 nº 5 Outubro 2005.

  Tratamento da infertilidade em mulheres com síndrome dos ovários policísticos - Laura Ferreira Santana - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.30 no.4 Rio de Janeiro Apr. 2008.

  Modificações do estilo de vida na síndrome dos ovários policísticos: papel do exercício físico e importância da abordagem multidisciplinar - George Dantas de Azevedo - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.30 no.5 Rio de Janeiro May 2008.

  Livro: The Polycystic Ovary Syndrome: Current Concepts on Pathogenesis and Clinical Care, por Ricardo Azziz - Publicado por Springer, 2007.

  Livro: Polycystic Ovary Syndrome, por Gábor T. Kovács & Robert Norman Publicado por Cambridge University Press, 2007.

  Livro: Polycystic Ovary Syndrome: A Woman's Guide to Identifying and Managing PCOS, John Eden Edition: illustrated Publicado por Allen & Unwin, 2005.

  Polycystic Ovarian Disease (Stein-Leventhal Syndrome) - Greg Marrinan et al. - Emedicine, updated: Aug 23, 2007.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)