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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO III - NÚMERO 30 - SETEMBRO DE 2005. ÚLTIMA REVISÃO: JUNHO DE 2009.

OBESIDADE

       Gordura é energia de depósito. Isto é, ela representa a diferença entre as calorias que ingerimos (alimentos e bebidas) e aquelas que gastamos nas atividades físicas (exercícios). Assim, quando uma paciente me diz que “tem tendência para engordar”, a leitura que faço dessa afirmação é – em princípio – a de que ela tem tendência a comer mais do que o suficiente para suprir as suas necessidades energéticas diárias. Nosso metabolismo administra as calorias de uma forma sensata,  como uma conta bancária: o que não é gasto, vai para a “poupança” (gordura).

       Nos consultórios médicos, é comum que as mulheres que “têm tendência para engordar” procurem um bode expiatório entre os distúrbios hormonais. Entretanto, apenas 5% das pacientes obesas têm alguma alteração endócrina como causa do excesso de peso. A despeito dos fatores genéticos e hereditários (antecedentes familiares), a ingestão excessiva de alimentos, aliada a uma vida sedentária, são os principais responsáveis pelo aumento progressivo do Índice de Massa Corporal (IMC).

       O Índice de Massa Corporal (IMC) é um número que indica a adequação do peso de uma pessoa adulta em relação à sua estatura. Para calcular o IMC, dividimos o peso (em quilogramas) pelo quadrado da altura (em metros);   ou seja:  IMC = peso (Kg) ÷ altura² (m²). Por exemplo: se uma mulher pesa 88 Kg e mede 1,63 de altura, o IMC será ... 88 dividido por (1,63 x 1,63),  ou   88 ÷ 2,656 = 33,13. Considera-se como peso normal quando o IMC está entre 18,5 e 24,9; sobrepeso, entre 25 e 29,9 e obesidade, quando o índice for igual ou superior a 30, como no exemplo que citamos.

Existem duas – e apenas duas - formas saudáveis de perder o excesso de gordura: a primeira é diminuir as calorias ingeridas (reeducação alimentar, com supervisão de uma nutricionista); a segunda, aumentar o gasto das calorias acumuladas, por meio de um programa de exercícios físicos diários.
"O Banheiro" - Fernando Botero, 1989.

       A assistência médica do ginecologista/obstetra abrange todos os aspectos (biológicos, psicológicos e sociais) das diversas fases da existência feminina: adolescência, gravidez, puerpério, pré/pós-menopausa e senectude. Portanto, quaisquer fatores que possam colocar em risco a saúde de suas pacientes - mesmo que estejam fora da esfera genital – serão motivos de preocupação e aconselhamento. A obesidade é um deles.

       Manter o IMC entre 18,5 e 24,9 – considerado ideal pela Organização Mundial de Saúde – visa diminuir o risco (estatisticamente comprovado) da paciente desenvolver hipertensão arterial, diabete tipo 2, cardiopatias, derrame cerebral, cálculos biliares e câncer do intestino grosso, entidades sabidamente relacionadas ao excesso de tecido adiposo. No âmbito da ginecologia e da obstetrícia, a obesidade acarreta uma maior incidência de câncer de mama, câncer do endométrio, problemas relativos à ovulação (irregularidade menstrual e infertilidade), além de aumentar os casos de pré-eclâmpsia e eclâmpsia – situações de perigo para a  gestante e para o feto. Em outras palavras: o acúmulo de gordura corporal não afeta apenas o peso, o contorno físico e a auto-estima das  pacientes, atingindo muitos outros aspectos da Saúde da Mulher.

        Mais de 60% das mulheres com síndrome dos ovários policísticos (SOP) têm IMC maior que 27. Esta condição pode facilitar a instalação de anormalidades metabólicas (resistência à insulina e hiperinsulinemia) que, por sua vez, alteram o perfil hormonal (distúrbios menstruais / anovulação / hiperandrogenismo / infertilidade) e aumentam a incidência de doenças cardiovasculares.

       Existem duas – e apenas duas - formas saudáveis de perder o excesso de gordura: a primeira é diminuir as calorias ingeridas (reeducação alimentar, com supervisão de uma nutricionista); a segunda, aumentar o gasto das calorias acumuladas, por meio de um programa de exercícios físicos diários. O ideal é que se associe uma coisa à outra, de maneira comedida, equilibrada e sem pressa de obter resultados imediatos. Não há mágica nesse processo (!).

       É comum vermos pacientes com sobrepeso ou obesas que, iludidas pela propaganda, recorrem a fórmulas miraculosas, suplementos alimentares ou a dietas estapafúrdias (da lua, do abacaxi, etc.) que prometem resultados espetaculares a curto prazo: “perca cinco quilos, ou mais, em apenas uma semana!” Muitas dessas “fórmulas” são comercializadas sem registro no Ministério da Saúde, e contêm substâncias que, além de efeitos colaterais desagradáveis, podem trazer sérios prejuízos para o organismo. Particularmente, não as recomendamos.

       Se você realmente quer emagrecer, procure a orientação de um(a) nutricionista e inicie um programa de atividade física numa academia de ginástica. Se você não tem recursos financeiros para fazê-lo, retire do seu cardápio o açúcar, os doces, os bolos, as massas, a pizza, os biscoitos, as balas e bombons, os refrigerantes com açúcar, as comidas gordurosas, frituras, os queijos amarelos; substitua-os pelas frutas, verduras, legumes, carnes magras, peixe, filé de peito de frango, queijo branco, em porções comedidas. Além da dieta, faça caminhadas diariamente por pelo menos um hora.

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       Para saber mais sobre este assunto:

   Obesidade: um problema para o ginecologista? - Edmund Chada Baracat e col. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.27 no.2 Rio de Janeiro Feb. 2005.

   Prevalência de lesões endometriais em mulheres obesas assintomáticas - Daniela A. da Cruz Gouveia et al. - Revista da Associação Médica Brasileira, vol.53 no.4 São Paulo July/Aug. 2007.

   Fatores associados à obesidade global e à obesidade abdominal em mulheres na pós-menopausa - Ana Paula França et al. - Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, vol.8 no.1 Recife Jan./Mar. 2008.

   Impacto da obesidade na capacidade funcional de mulheres - Juliana V. A. Orsi et al. - Revista da Associação Médica Brasileira, vol.54 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2008.

   Eixos hormonais na obesidade: causa ou efeito? - Roberta A. Lordelo et al. - Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, vol.51 no.1 São Paulo Feb. 2007.

   Obesidade: Atualização sobre sua Etiologia Morbidade e Tratamento - Rachel P. P. de Frnacischi et al. - Revista de Nutrição, vol.13 no.1 Campinas Jan./Apr. 2000.

   Síndrome dos ovários policísticos, síndrome metabólica, risco cardiovascular e o papel dos agentes sensibilizadores da insulina - Regina do Carmo Silva et al. - Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, vol.50 no.2 São Paulo Apr. 2006.

   Ovários policísticos, resistência insulínica e síndrome metabólica - Edmund Chada Baracat et al. - Revista Brasileira de Ginecolo- gia e Obstetrícia, vol.29 no.3 Rio de Janeiro Mar. 2007.

   A obesidade feminina - Renata Güenter - Análise Psicológica , Vol. 1 (XVIII): 59-70 - 2000.

   Livro: Obesidade: o peso da exclusão - Lucia Marques Stenzel -Publicado por EDIPUCRS, 2002.

   Livro: Obesity: dietary and developmental influences - Gail Woodward-Lopez et al. - Publicado por CRC Press, 2006.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)