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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO III - NÚMERO 25 - ABRIL DE 2005. ÚLTIMA REVISÃO: JUNHO DE 2009.


EXCESSO DE PÊLOS

       Com exceção do couro cabeludo, das sobrancelhas, dos cílios e da região genital, a estética feminina não admite o crescimento de pêlos grossos e escuros em nenhuma outra região do corpo, sendo a depilação das pernas, coxas, axilas e virilhas um tópico importante na agenda da grande maioria das mulheres ocidentais. O aparecimento de fios grossos, em áreas típicas do sexo masculino – como a face, tórax, abdome e costas -, além de repercutir negativamente sobre a auto-imagem, desperta certa intranqüilidade, motivando a busca por auxílio médico nos consultórios de dermatologistas, endocrinologistas e ginecologistas.

       Os pêlos corporais são basicamente de dois tipos: o velus (fios curtos, finos, macios e incolores) e o terminal (fios espessos e escuros). A transformação dos pêlos velus em terminais ocorre sob a influência dos hormônios androgênicos. Nos homens, esses hormônios são produzidos principalmente pelos testículos; uma pequena fração, porém, é produzida pelas glândulas supra-renais. Nas mulheres, além das supra-renais, os ovários têm uma participação importante na síntese dos hormônios androgênicos (androstenediona, testosterona, dehidroepiandros-terona e o sulfato de dehidroepiandrosterona).

       Chamamos de hirsutismo o crescimento excessivo de pêlos terminais na mulher em regiões anatômicas próprias do sexo masculino. O hirsutismo, por si só, não é uma doença; mas um sintoma, cujo significado - patológico ou não – irá variar de acordo com intensidade, com a época do aparecimento (na infância, na puberdade, na vida adulta ou na pós-menopausa), com a velocidade de progressão e com a concomitância de outros sinais clínicos (distúrbios menstruais, acne, obesidade, infertilidade, engrossamento da voz, aumento do clitóris, etc.). É importante lembrar que a pilificação feminina também é uma característica racial; isto é, mulheres asiáticas, esquimós e índias nativas das Américas têm pouco pêlo no corpo, enquanto as que descendem dos povos do Oriente Médio (sauditas, israelenses, libanesas, sírias, iraquianas, jordanianas, etc.) e do Mediterrâneo ( portuguesas, espanholas, italianas, gregas) têm mais pêlos.

Graduação do Hirsutismo
A figura ilustra as regiões em que ocorre o crescimento de pêlos terminais
nas pacientes acometidas de hirsutismo.

       Diante de uma paciente com hirsutismo leve, descartadas as influências étnicas e as de alguns medicamentos, é importante saber se há, ou não, um aumento na quantidade dos hormônios androgênicos circulantes. Num grande número de casos, apesar do quadro clínico, as dosagens hormonais estão absolutamente normais, demonstrando tratar-se apenas um aumento na sensibilidade cutânea (do folículo piloso) a esses hormônios - uma característica pessoal com forte componente genético. Nas pacientes obesas ou com sobrepeso, há possibilidade do hirsutismo estar associado à síndrome dos ovários policísticos.

       Nos casos de maior intensidade, de aparecimento súbito e rápida progressão, em que geralmente outros sintomas estão associados, as dosagens hormonais são fundamentais para estabelecer a origem do aumento dos androgênios que, como já dissemos, pode estar nos ovários ou nas glândulas supra-renais.

       A causa mais freqüente do excesso de pêlos, de origem glandular, é a Síndrome dos Ovários Policísticos, correspondendo a 50% das pacientes acometidas. A irregularidade menstrual (ciclos longos ou ausentes), que se instala desde a puberdade, associada a imagens císticas nos ovários (ultra-sonografia) sugere esse diagnóstico.  

       O tratamento do hirsutismo irá variar de acordo com a causa. Portanto, é fundamental uma  investigação clínica criteriosa. Na grande maioria das vezes, a terapêutica medicamentosa, associada ou não a medidas cosméticas – depilação temporária ou definitiva -, tem resultados satisfatórios. São muito raros os casos em que o tratamento cirúrgico é necessário (tumores ovarianos e supra-renais).

       Atualmente existem diversos recursos terapêuticos para normalizar os níveis dos androgênios e/ou diminuir a ação destes sobre o folículo piloso. Na Síndrome dos Ovários Policísticos, por exemplo, uma das opções de tratamento (exclusivamente para aquelas pacientes que não desejam engravidar) é o uso de uma pílula anticoncepcional que associa dois hormônios; o etinilestradiol, que na dosagem de 0,035 mg aumenta os níveis da proteína que se liga à testosterona, o que diminui a ação desta sobre os folículos; o outro hormônio é um anti-androgênio (acetato de ciproterona), que ocupa os receptores da testosterona sem ter sobre eles uma ação androgenizante. Este contraceptivo, além de combater o hirsutismo, também regula o ciclo menstrual.

       O excesso de pêlos não tem apenas conotação estética... Na dúvida, consulte o seu médico.

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Para saber mais sobre este assunto:

   Diagnóstico etiológico do hirsutismo e implicações para o tratamento - Poli Mara Spritzer - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetetrícia, vol. 31(1):41-7 - 2009.

   Hirsutismo: diagnóstico diferencial - Dr. José Antonio M. Marcondes - Arq Bras Endocrinol Metab vol.50 no.6 São Paulo Dec. 2006.

   Hiperandrogenismo e pele: síndrome do ovário policístico e resistência periférica à insulina - Samira Yarak e cols. - An Bras  Dermatol. 2005; 80(4):395-410.

   Revisitando o Hirsutismo - Poli Mara Spritzer - Arq Bras Endocrinol Metab vol.46 no.2 São Paulo Apr. 2002.

   Hirsutism - Prof. Herbert P Goodheart, MD. & cols. - eMedicine.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)