Rio de Janeiro - RJ - Brasil.                                                              
Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO II - NÚMERO 23 - FEVEREIRO DE 2005. ÚLTIMA REVISÃO: MAIO DE 2009.

INFERTILIDADE (II): MÃE AOS 70 ANOS !

       Os recursos médico-científicos (farmacêuticos e tecnológicos) atualmente disponíveis são capazes de transcender os limites temporais da biologia feminina. Enquanto, no passado, a capacidade gestatória da mulher chegava ao seu término nas proximidades da menopausa, hoje, essa capacidade pode se estender por muitos e muitos anos depois da última menstruação.

        No dia 16 de janeiro de 2005, quatro meses antes de completar 67 anos de idade, Adriana Iliescu – professora universitária na Romênia e autora de livros infantis –, inconformada com o fato de não poder ter filhos, realizou o sonho de ser mãe. Depois de três tentativas, ao longo de nove anos, utilizando técnicas de reprodução assistida (fertilização in vitro, com óvulos e espermatozóides de doadores) e revertendo (com medicamentos) a deficiência hormonal da pós-menopausa, Adriana conseguiu, finalmente, abrigar e nutrir em seu útero três embriões. Alertada sobre os riscos de sobrevivência de trigêmeos, ela optou por diminuir o número de fetos para apenas dois. A gravidez prosseguiu normalmente até que uma das gêmeas faleceu no interior do útero... Diante da possibilidade de que esta ocorrência afetasse a sobrevida da gêmea restante, a equipe médica que assistia Adriana decidiu submetê-la a uma cesariana na 33ª semana de gravidez. Eliza-Maria nasceu com 1.450 gramas e ficou no berçário do hospital-maternidade Giulesti, em Bucareste, até que os pediatras a liberaram para o convívio familiar.

Nas fotos acima, vemos Adriana Iliescu que, aos 66 anos, deu à luz a sua filha Eliza-Maria. À esquerda, logo após a saída da maternidade. À direita, em 2008, com três anos e cinco meses.

          Sob o impacto desse fato extraordinário, publiquei, em fevereiro de 2005, um artigo intitulado "INFERTILIDADE (II): MÃE AOS 66 ANOS !", desconhecendo que alguns anos mais tarde, ao revê-lo, a protagonista seria uma mulher mais velha ainda, o que me obrigaria a mudar o título.

          Rajo Devi, uma indiana de 70 anos de idade, deu à luz a uma menina que pesou 1.150 gramas, no dia 28 de novembro de 2008, tornando-se a mãe mais velha do mundo. Em julho daquele mesmo ano, uma outra indiana - Omkari Panwar -, também com 70 anos (presumidos), teve um casal de gêmeos prematuros (cada um pesou aproximadamente 950 gramas).

         As técnicas de reprodução assistida incluem procedimentos chamados de baixa e de alta complexidade. Os procedimentos de baixa complexidade são o coito programado e a inseminação artificial intra-uterina. Os de alta complexidade são a fertilização "in vitro" com transferência de embriões (FIV/TE), a fertilização "in vitro" com injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI), a transferência intratubária de gametas (GIFT), a transferência intratubária de zigoto (ZIFT), a transferência transvaginal intratubária de embrião (TV-TEST – transvaginal intra-tubal embryo stage transfer) e transferência de embrião congelado (FET - frozen embryo transfer).

         O coito programado é indicado para aquelas paciente com problemas ovulatórios (ovários policísticos, por exemplo). Faz-se a indução da ovulação por meio de medicamentos e monitora-se o crescimento do(s) folículo(s) e a ovulação pela ultra-sonografia, indicando os dias mais propícios para o coito fecundante. Na inseminação artificial intra-uterina, procede-se de maneira semelhante quanto à indução e monitoramento da ovulação, entretanto o sêmen capacitado (do parceiro ou de um doador) é introduzido diretamente no útero. Em ambas as técnicas, o encontro dos gametas (óvulo e espermatozóide), isto é, a fertilização, dá-se no interior da trompa.

          A fertilização "in vitro" com transferência de embriões (FIV/TE) passou a ser utilizada no tratamento de casais inférteis a partir do sucesso obtido com o nascimento de Louise Brown, em 25 de julho de 1978, em Bristol, Inglaterra. A mãe de Louise, Lesley Brown, tinha as duas trompas obstruídas, o que tornava impossível a concepção pelas vias naturais. Os médicos Patrick Steptoe e Robert Edwards desenvolveram a técnica da fertilização fora do corpo (in vitro). O encontro do espermatozóidecom o óvulo foi realizado em laboratório, reproduzindo-se artificialmente as condições ambientais encontradas no interior da trompa. O embrião resultante, com cerca de três dias de idade, foi então implantado no útero de Lesley, para continuar crescendo e se desenvolvendo até a hora do parto.

Com 70 anos de idade, as indianas Omkari Panwar (à esquerda) e Rajo Devi conseguiram engravidar submetendo-se às técnicas de reprodução assistida. Todos os bebês foram prematuros. Cada um dos gêmeos de Omkari Panwar pesou aproximadamente 950 gramas. A filha de Rajo Devi pesou 1.150 gramas.

         O pioneirismo de Patrick Steptoe e Robert Edwards foi seguido, nesses últimos 30 anos, pela criação de novas técnicas de manipulação de gametas e embriões - ICSI, ZIFT, TV-TEST, FET, etc. - dando origem a um amplo debate sobre os limites éticos do emprego da reprodução assistida.

         No caso das gestantes septuagenárias, além da tranferência de embriões - obtidos pela fertilização de óvulos de doadoras -, foi necessário reverter a atrofia do útero e do endométrio (a camada mais interna do útero que abriga e nutre o embrião). Quanto maior for o tempo decorrido após a menopausa, maior será o grau de atrofia uterina e endometrial, demandando maiores doses de hormônios para revertê-las. É absolutamente necessário que o embrião a ser implantado encontre, no endométrio, as condições ideais para o seu desenvolvimento. Durante os três primeiros meses de gestação, a gravidez é mantida pelos hormônios (progesterona) sintetizados pelo ovário (corpo amarelo). Do quarto mês em diante, a placenta passa a ser a principal responsável pela síntese hormonal que garantirá a continuidade da gestação. Para conseguirem o seu intento, as septuagenárias tiveram que se submeter a doses maciças de hormônios - antes e durante a gravidez - pois a menopausa teria acontecido pelo menos 15 anos antes.

         As opiniões se dividem quanto à utilização das técnicas de reprodução assistida em mulheres idosas. Os pareceres favoráveis apoiam-se na igualdade de gênero (se um homem pode ter filhos aos 70, as mulheres também podem) e na liberdade reprodutiva. Os pareceres desfavoráveis têm por base o aumento do risco de complicações relacionadas à gravidez, tais como hipertensão, diabetes, pré-eclâmpsia, parto prematuro e outros. Ter um(a) filho(a) aos setenta anos é "realizar um sonho" ou é "um ato irresponsável de egoísmo"? As pacientes - e seus médicos - refletiram sobre o fato de que o exercício da maternidade se extende para além do parto, quando planejaram a gestação de órfãos em potencial?

         A infertilidade deve continuar sendo uma característica natural dos anos que se seguem à menopausa, ou devemos desafiar a passagem do tempo tentando resgatar funções orgânicas que já não existem em um corpo envelhecido? Há um tempo para tudo, penso eu. O desejo de ser mãe, quando a idade da mulher é mais apropriada para ser avó - ou bisavó -, está além do meu entendimento. O que dizer das qualidades éticas e morais das equipes médicas que deram assistência às septuagenárias na realização de seus "sonhos"? O que pretendiam? Notoriedade e glória, independentemente dos riscos aos quais submeteram suas pacientes e os respectivos fetos? Deveria o Estado legislar sobre uma idade limite para o emprego da reprodução assistida, como acontece na Romênia? Ainda não tenho as respostas para todas essas perguntas, mas estou de acordo com os argumentos da Comissão de Ética da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, sobre a doação de óvulos para mulheres na pós-menopausa, quando afirma que "a gravidez na pós-menopausa deve ser desencorajada".

       Os avanços da Medicina caminham a passos largos, criando situações que desafiam o nosso entendimento e suscitando questões éticas e jurídicas jamais imaginadas. Hoje, é possível congelar o sêmen, óvulos e embriões para serem utilizados a qualquer tempo – mesmo depois da morte dos doadores. A ousadia da pesquisa científica não conhece limites. Entretanto, uma descoberta científica deve ser criteriosamente avaliada - sob os mais diversos aspectos - antes que autorizemos a sua aplicação fora dos domínios do laboratório.

        Nossos conhecimentos atuais são suficientes para que uma mulher gere uma filha, com um genoma idêntico ao seu (clone) e sem a participação masculina. O processo seria mais ou menos assim: um óvulo dessa mulher teria o seu núcleo (que contém apenas a metade do genoma) retirado e, no lugar deste, seria colocado o núcleo de uma célula somática (que contém a totalidade das características genéticas), transformando-se, desta forma, num embrião. Este, por sua vez, seria implantado no útero da mesma mulher. O produto dessa gravidez seria um clone, uma gêmea idêntica à sua mãe. Mas, a quem interessaria protagonizar essa façanha "científica"? Será que alguma indiana irá se candidatar?

       A infertilidade conjugal é uma circunstância que envolve aspetos biológicos, psicológicos, éticos, jurídicos e sociais. Os casais atingidos por essa situação, bem como os profissionais que se dedicam ao seu tratamento, devem considerar e refletir sobre esses cinco aspetos antes de decidirem a respeito do método terapêutico a ser empregado.

--------------------------------------------------------------------

  Para saber mais sobre este assunto:

   NORMAS ÉTICAS PARA A UTILIZAÇÃO DAS TÉCNICAS DE REPRODUÇÃO ASSISTIDA - CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA - RESOLUÇÃO CFM nº 1.358/92.

   Fertilização in vitro com injeção intracitoplasmática de espermatozóide em ciclos naturais - Newton Eduardo Busso et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.29 no.7 Rio de Janeiro July 2007.

   Avanços em reprodução assistida - Marcia de Freitas et al. - Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, v.18 n.1 São Paulo abr. 2008.

   Investigação e reprodução assistida no tratamento da infertilidade masculina - Fábio Firmbach Pasqualotto - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.29 no.2 Rio de Janeiro Feb. 2007.

   A taxa de gestação em mulheres submetidas a técnicas de reprodução assistida é menor a partir dos 30 anos - Lauriane G. de Abreu et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.28 no.1 Rio de Janeiro June 2006.

   Interferência da idade sobre a qualidade seminal - Marcelo Borges Cavalcante et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.30 no.11 Rio de Janeiro Nov. 2008.

   Estresse e ansiedade em mulheres inférteis - Simone da Nóbrega T. Moreira et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.28 no.6 Rio de Janeiro June 2006.

   Infertilidade: um novo campo da Psicologia da saúde - Débora Marcondes Farinati et al. - Estudos de Psicologia (Campinas), v.23 n.4 Campinas dez. 2006.

   Oocyte donation to postmenopausal women - The Ethics Committee of the American Society for Reproductive Medicine - Fertility and Sterility, vol. 82, suppl. 1, September 2004.

   Livro: Textbook of in vitro fertilization and assisted reproduction - Peter R. Brinsden - Publicado por Taylor & Francis, 2005.

   Livro: Textbook of assisted reproductive techniques: laboratory and clinical perspectives - David K. Gardner et al. - Publicado por Informa Health Care, 2004.

   Livro: The Art and Science of Assisted Reproductive Techniques (ART) - Gautam N. Allahbadia et al. - Publicado por Taylor & Francis, 2005.

   Livro: Assisted reproductive technology: accomplishments and new horizons - Por Christopher J. De Jonge et al. - Publicado por Cambridge University Press, 2002.

--------------------------------------------------------------------

Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)