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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO II - NÚMERO 22 - JANEIRO DE 2005. ÚLTIMA REVISÃO: DEZEMBRO DE 2008.

O PONTO "G": REALIDADE OU FICÇÃO ?

       Em 1950, Ernest Gräfenberg - um eminente ginecologista alemão, internacionalmente consagrado como pioneiro por suas pesquisas sobre o DIU –, publicou um artigo no Jornal Internacional de Sexologia, intitulado “A função da uretra no orgasmo feminino”. Neste artigo, ele afirmou que são "inumeráveis os pontos erógenos distribuídos por todo o corpo, através dos quais a satisfação sexual pode ser alcançada”. Completando a frase, ele escreveu: “são tantos os pontos que, até poderíamos dizer, não existir uma parte do corpo da mulher que não reaja sexualmente, o parceiro tem apenas que descobrir as zonas erógenas”.

        Nessa mesma publicação, Gräfenberg afirma existir “uma zona erógena que pode ser encontrada na parede anterior da vagina no trajeto da uretra”. Segundo as observações daquele cientista, essa região possuiria um tecido erétil – semelhante ao corpo esponjoso do pênis, cujas dimensões aumentariam durante a excitação sexual – capaz de proporcionar um grande prazer ao ser estimulada, fazendo com que as mulheres alcançassem o orgasmo mais facilmente.

A figura indica a localização da zona erógena descrita por Ernest Gräfenberg em 1950.

       Complementando o seu artigo, aquele ginecologista escreveu: “Se houver oportunidade de observarmos o orgasmo de tais mulheres, poderemos constatar que elas expelem, em esguicho, um líquido claro e transparente pela uretra. Estou disposto a acreditar que essa urina, relatada durante o orgasmo feminino, não é urina, mas secreções das glândulas intra-uretrais relacionadas com a zona erógena existente ao longo da uretra, na parede anterior da vagina”.

       Resumindo: com o seu relato - que vai da página 145 à 149, do exemplar nº 3,  do International Journal of Sexology, de 1950 -, Gräfenberg lançou, nos meios acadêmicos, as bases de uma interminável discussão, cujos desdobramentos se estendem até os dias atuais.

       A expressão “ponto G” – “G spot”, em inglês - surgiu, pela primeira vez, em 1981, num artigo do The Journal of Sex Research, como uma homenagem de seus autores - Drs. John Perry e B. Whipple – àquele ginecologista alemão. No ano seguinte, a expressão tornou-se conhecida do público leigo, com a publicação, nos Estados Unidos, do livro “O Ponto G e outras Recentes Descobertas sobre a Sexualidade Humana” – no Brasil, foi publicado pela Editora Record, podendo ainda ser encontrado nas livrarias, sob o título “O Ponto G” -, tendo como autores Alice Kahn Ladas, John Perry e B. Whipple. O livro – que foi um sucesso de vendas – deu início a um amplo, caloroso e prolongado debate, envolvendo a comunidade científica (anatomistas, fisiologistas, ginecologistas, sexólogos, embriologistas, etc.) e a população feminina.

       Nos últimos cinqüenta anos, a literatura universitária acumulou mais de duzentos e cinqüenta trabalhos sobre o tema. Nesse período, foram inúmeros os congressos, simpósios e conferências  que se ocuparam dessa matéria. Enquanto algumas autoridades de renome internacional relataram evidências irrefutáveis dos achados de Gräfenberg, outras - de igual projeção no mundo científico – negaram enfaticamente aquelas descobertas, comparando-as a um ET (ser extraterrestre) ou a um OVNI (objeto voador não identificado); isto é, algo cuja existência ainda precisa ser comprovada.

       A conclusão a que chegamos é que tanto o “ponto G” quanto a “ejaculação feminina” são características especiais de uma minoria, não podendo - de forma alguma - serem tomadas como um padrão fisiológico a ser aplicado a todas as mulheres. Por outro lado, centralizar a sexualidade feminina em apenas um ponto é uma grande idiotice.

       Cada casal tem um mapeamento e um alfabeto próprio dos pontos erógenos. A experiência sexual não é apenas física e sensorial, mas também emocional e afetiva. Com a cumplicidade que só a intimidade permite, tanto ele quanto ela devem descobrir o prazer no “ponto A”, no “ponto B”, no “ponto C”, no “ponto D”...

       Haja alfabeto !

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  Para saber mais sobre este assunto:

  The Role of Uretra in Female Orgasm- Ernest Gräfenberg - The International Journal of Sexology , February, 1950.

  Aspectos diagnósticos e terapêuticos das disfunções sexuais femininas - Carmita Helena Najjar Abdo & col. - Rev. psiquiatr. clín, 2006.

  ASPECTOS FISIOLÓGICOS E DISFUNCIONAIS DA SEXUALIDADE FEMININA - Heitor Hentschel & cols. - REVISTA DO HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE - 2006;26(2):3.

 A Review of Female Ejaculation During Orgasm - Nick Fleming - Psychology 353: Human Sexuality I - November 23, 2006.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)