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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO II - NÚMERO 21 - DEZEMBRO DE 2004. ÚLTIMA REVISÃO: NOVEMBRO DE 2008.


CISTO DE OVÁRIO (I)

       Os ovários são glândulas muito especiais. Na puberdade, são responsáveis pela produção dos hormônios que irão transformar o corpo da menina num corpo de mulher (surgimento das mamas, arredondamento das formas, aparecimento dos pêlos pubianos, etc.).

       Cerca de dois anos após a primeira menstruação – e por mais de trinta anos até as proximidades da menopausa -, a atividade ovariana passa a obedecer a um complexo ciclo, cujo objetivo principal contém a essência da Natureza: a reprodução. Diferentemente dos testículos que, a partir da puberdade, produzem diariamente cerca de 100 a 200 milhões de espermatozóides, os ovários, durante a fase reprodutiva, produzem um único óvulo a intervalos que variam de 21 a 36 dias.

       A ovulação, que ocorre mais ou menos no meio do período entre as menstruações, é o acontecimento central do ciclo ovariano (figura 1). Antes e depois da ovulação, a estrutura ovariana passa por profundas modificações que se refletem na quantidade e na qualidade dos hormônios produzidos. Na fase pré-ovulatória, alguns folículos (estruturas que contém os óvulos) começam a crescer, adquirindo o aspecto de pequenas bolhas (cistos). Entre esses folículos, um se destaca - o maior deles (o escolhido para romper-se) -, que imediatamente antes da ovulação chega a alcançar 20 mm de diâmetro. O principal hormônio produzido nesta fase é o estrogênio.  No período pós-ovulatório, as paredes do folículo roto se transformam numa nova estrutura: o corpo amarelo ou corpo lúteo. Como se fosse uma nova glândula dentro do ovário, o corpo amarelo – que produz um outro hormônio, a progesterona – tem o seu tempo de existência determinado pela ocorrência (ou não) da fecundação. .

Figura 1: Ilustra os fenômenos do ciclo ovariano, mostrando o desenvolvimento do folículo, a ovulação,
a formação e regressão do corpo lúteo, relacionando-os, no tempo, a um ciclo menstrual de 28 dias.
Os números que aparecem em vermelho correspodem ao dia do ciclo da ocorrência.


        Havendo gravidez, o corpo lúteo se mantém até o segundo mês e meio da gestação. Se, entretanto, a fecun- dação do óvulo não aconteceu, o corpo amarelo regride ao término de apenas 14 dias. A regressão do corpo lúteo - e a queda dos níveis de progesterona - é responsável pela chegada da mentruação (figura 2)

Figura2: Mostra a correspondência entre os acontecimentos do ciclo ovariano e os do ciclo mentrual (ciclo uterino).
Os números que aparecem em vermelho correspodem ao dia do ciclo da ocorrência.

       Como descrito, são muitas e complexas as alterações sofridas pelos ovários em cada ciclo. Se imaginarmos que esse processo (crescimento dos folículos, ovulação, formação do corpo lúteo, cicatrização) se repete – da puberdade à menopausa – por pelo menos 400 vezes; se lembrarmos que os intrincados mecanismos hormonais que o regulam são extremamente sensíveis e dependem também de outras glândulas (como a hipófise, a tiróide, entre outras); se admitirmos, ainda, que a Natureza está sujeita a falhas e a “acidentes de percurso”, talvez possamos entender algumas das alterações ovarianas que, na ultra-sonografia, aparecem sob a forma de cistos.

       Cistos são cavidades – como bolhas - que contêm líquido no seu interior. As características mais importantes dos cistos de ovário, que norteiam o diagnóstico quanto à sua natureza benigna ou maligna, são: o tamanho, a homogeneidade do conteúdo, a regularidade da parede (cápsula) e o fato de atingir (ou não) ambos os ovários. É importante lembrar que o folículo, imediatamente antes da ovulação, é um “cisto” que chega a alcançar 20mm de diâmetro – uma ocorrência absolutamente normal na fisiologia feminina durante a fase reprodutiva, mas que muitas vezes preocupa a paciente ao ler o laudo da ultra-sonografia. Os folículos podem dar origem aos chamados cistos funcionais (ou cistos simples). Estes, desde que menores que 5 cm - e assintomáticos - não necessitam de nenhuma intervenção, pois, na maioria das vezes, regridem espontaneamente.

       Cistos maiores que 5cm, de conteúdo heterogêneo, com limites irregulares e de crescimento progressivo - principalmente se aparecem antes da primeira menstruação ou após a menopausa – precisam ser removidos cirurgicamente para exame, pois existe a possibilidade de, nessas circunstâncias, tratar-se de um tumor maligno.

       A maioria das formações císticas ovarianas não apresenta sintomas, porém algumas portadoras podem se queixar de irregularidades menstruais e dor pélvica (que aumenta com as relações sexuais e/ou com as menstruações).

       Os chamados “ovários policísticos”, assim como os cistos por endometriose ovariana, serão  temas a serem abordados em outros artigos desta série.


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Para saber mais sobre este assunto:

    Índice de risco de malignidade para tumores do ovário incorporando idade, ultra-sonografia e o CA-125 - Luís Roberto A. Fernandes - Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.25 no.5 Rio de Janeiro June 2003.

    Classification of human ovarian tumors. Prof. Dr. R E Scully, Department of Pathology, Harvard Medical School, Boston, MA.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)