Rio de Janeiro - RJ - Brasil.                                                              
Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO II - NÚMERO 16 - JULHO DE 2004. ÚLTIMA REVISÃO: NOVEMBRO DE 2008.

DOR NAS MAMAS

       As mamas são basicamente constituídas por três tipos de tecidos: o glandular, o fibroso e o gorduroso. O tecido glandular, responsável pela produção do leite, é formado por unidades secretoras chamadas ácinos que se interligam por um conjunto de canalículos ramificados (ductos) – semelhantes às hastes de um cacho de uvas - que drenam o leite produzido nos ácinos até o mamilo. O tecido fibroso tem a função de sustentação das estruturas internas, mantendo a sua arquitetura - como as colunas e vigas de um prédio em construção. A gordura, por sua vez, além de revestir toda a glândula, preenche os espaços entre os ácinos, os ductos e as traves fibrosas, contribuindo de maneira importante para a forma, volume e contorno das mamas.


A figura ilustra os principais tecidos que compõem a mama:
o glandular (lóbulos),o fibroso (conjuntivo) e o adiposo (gorduroso).

       Desde a puberdade até a menopausa, as mamas estão sob a influência dos hormônios ovarianos. Para a Natureza, cada ciclo menstrual encerra o potencial de uma gravidez, o que a leva (a Natureza) a iniciar os preparativos para a lactação todos os meses. Durante a gestação, sob o influxo dos hormônios placentários, esses preparativos se intensificam até que, no pós-parto as mamas alcançam a plenitude da sua função: o aleitamento.

       A dor mamária – ou mastalgia - é um sintoma freqüente na clínica ginecológica e obstétrica. Duas em cada três mulheres, em alguma fase de suas vidas, irão queixar-se desse desconforto aos seus médicos. Neste artigo, não abordaremos as causas da mastalgia que acometem as gestantes e nutrizes, como o ingurgitamento, as fissuras dos mamilos e a mastite pós-parto. Aqui, falaremos apenas sobre a dor que atinge a mulher fora da gestação e do puerpério.

        Antes de tudo, porém, é importante reafirmar que a mastalgia raramente está associada ao câncer.

       Três aspectos, colhidos durante a consulta, são fundamentais para a investigação diagnóstica: a idade da paciente (acima ou abaixo dos 35 anos), o caráter cíclico (ou não) da dor e se esta afeta apenas uma ou ambas as mamas.

       Antes dos 35 anos, a dor mamária costuma ser cíclica e bilateral, ocorrendo no período pré-menstrual e cessando com a chegada do fluxo. Durante o exame clínico, na maioria das vezes, não são percebidos nódulos, estando toda a mama sensível à palpação. Atribui-se a esse distúrbio uma sensibilidade aumentada (pessoal e específica) à influência dos hormônios ovarianos e a uma maior retenção de líquidos pelo organismo. A dor cíclica é responsável por 75% dos desconfortos mamários.

       Após os 35 anos, os ciclos podem se tornar irregulares (mais prolongados) e, nessa mesma fase da vida da mulher, é mais freqüente o aparecimento de cistos mamários. Estes fatos contribuem para que a queixa da paciente seja a de uma dor constante, sem associação com a menstruação e, muitas vezes, afetando apenas uma das mamas; e mais, o ponto doloroso é bem localizado. A existência de nódulos deve ser sempre investigada quanto à sua constituição (císticos ou sólidos) por meio da ultra-sonografia e da mamografia. A punção–biópsia por agulha fina se impõe no caso de lesões palpáveis.

       A dor mamária unilateral também pode ser causada por um traumatismo ou por um processo infeccioso local. Em alguns casos, a origem da dor não está na mama, mas na parede do tórax - músculos, nervos, ossos e articulações (costocondrite).

       Como vimos, o diagnóstico da dor mamária é sugerido pela história clínica (idade, ciclicidade) e confirmado pelo exame físico (palpação). A ultra-sonografia pode ser útil na diferenciação das lesões palpáveis sólidas e císticas; enquanto a mamogragia evidencia as lesões não palpáveis.

       O tratamento da mastalgia irá variar de acordo com a causa e a intensidade do desconforto. Muitas vezes, a dor desaparece sem qualquer tratamento, sendo suficiente o uso de um sutiã que dê sustentação adequada às mamas, principalmente as mais volumosas. A atitude tranqüilizadora do médico, afastando a possibilidade de uma patologia maligna, também tem efeitos benéficos por diminuir a ansiedade (cancerofobia) das pacientes. A terapia medicamentosa, quando necessária, poderá variar desde o uso de um analgésico comum, nos casos leves, até drogas muito potentes - que bloqueiam a ação dos hormônios -, reservadas para os casos mais graves, em que há perda da qualidade de vida, com comprometimento das atividades profissionais e domésticas. Segundo a Clínica Mayo, alguns médicos americanos recomendam o uso de óleo de prímula -1g três vezes ao dia. Embora a literatura seja inconclusiva, muitos profissionais aconselham o uso de 400 mg de vitamina E, três veses por dia, para alívio da mastalgia cíclica.

----------------------------------------------------------------------------

Para saber mais sobre este assunto:

   Mastalgia cíclica pré-menstrual: placebo versus outras drogas - Prof. Dr. Laurival A. De Luca & cols. - Rev. Assoc. Med. Bras. vol.52 no.4 São Paulo July./Aug. 2006

   Nódulos benignos da mama: uma revisão dos diagnósticos diferenciais e conduta - Prof. Dr. Afonso Celso P. Nazário e cols. - Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.29 no.4 Rio de Janeiro Apr. 2007

   Mastalgia cíclica: o impacto do medo de câncer no tratamento - Flávio Nunes Sivini - Revista Brasileira de Mastologia - Vol. 13 –  nº 2 – 2003

   Avaliação das mamas com métodos de imagem - Luciano F. Chala & col. - Radiol Bras vol.40 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2007.

------------------------------------------------------------------------------------------

Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)