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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO II - NÚMERO 15 - JUNHO DE 2004. ÚLTIMA REVISÃO: ABRIL DE 2009.

MENOPAUSA E SEXUALIDADE

       A procriação não é a única – nem a principal - motivação para as relações sexuais entre os seres humanos. A conjugação dos afetos, a possibilidade de compartilhar sentimentos e, basicamente, o prazer das sensações atingidas pela intimidade dos corpos são fatores muito mais importantes a serem considerados do que o eventual desejo de perpetuação da espécie.

       O impulso erótico, em seu significado mais abrangente de “busca do prazer”, inicia-se nos primeiros dias de vida e se estende por toda a nossa existência, não sendo uma característica exclusiva de uma determinada faixa etária. O impulso sexual, porém, recebe múltiplas influências com o passar dos anos: algumas de caráter físico (diminuição natural da produção de hormônios, instalação de doenças degenerativas, etc.), outras de origem psíquica (depressão) e sócio-cultural. Neste último caso, não podemos deixar de mencionar a nefasta influência de alguns conceitos religiosos – surgidos na Idade Média, mas que ainda perduram – que ligaram o sexo ao pecado e à culpa, e que afirmavam ser a produção de filhos o único objetivo do relacionamento amoroso (!).

       Uma pesquisa - apresentada na Universidade de Campinas (SP) em setembro de 2000, contando com a participação de 456 mulheres, cujas idades variavam entre 45 e 60 anos - revelou que 68% das entrevistadas mantinham atividade sexual regular. Neste grupo, 88% responderam que tinham prazer durante a relação. Entre as ativas sexualmente, 56% garantiram manter de 1 a 4 relações por mês. Um percentual expressivo, 29%, disse ter de cinco a dez relações/mês; 12%, de 11 a 20 relações; e 3%, 21 ou mais relações. Esses dados deixam claro que o avançar da idade, por si só, não se traduz necessariamente pela renúncia ao exercício da sexualidade entre os casais.

O avançar da idade, por si só, não se traduz necessariamente pela renúncia ao exercício da sexualidade entre os casais.

       Nos homens, a partir dos cinqüenta anos, a produção de hormônios pelos testículos, começa a declinar de forma lenta e gradual, porém persistindo por toda a vida. Nas mulheres, os hormônios ovarianos diminuem de maneira mais aguda, durante a quarta década de vida, ao término da qual ocorre a menopausa (a última menstruação). O desempenho sexual de homens e mulheres diminui, natural-mente, com a queda dos níveis hormonais. Mas, diminuir não significa terminar...

       No climatério, os sintomas decorrentes da queda dos níveis hormonais, como as ondas de calor, os suores noturnos, a menor elasticidade e lubrificação da vagina podem prejudicar, de forma mais ou menos intensa, o relacionamento sexual da mulher nesta fase. A secura vaginal torna a penetração mais difícil – e até dolorosa -, criando a associação “sexo-dor” em lugar de “sexo-prazer”, o que faz com que muitas mulheres passem a evitar as relações por esse motivo. Entretanto, esse processo pode ser evitado - ou revertido – com o uso de diversos medicamentos atualmente disponíveis. Em outras palavras, é possível manter uma vida sexual ativa e prazerosa por muitos e muitos anos após a menopausa.

        Em 1940, a expectativa de vida das brasileiras era de apenas 45 anos; isto é, a maioria falecia antes da menopausa. Segundo o relatório de 2002 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a média de vida das mulheres em nosso país alcançou os 74,9 anos. Isso significa que, atualmente, elas passam pelo menos um terço de suas vidas na pós-menopausa. Mas, não basta viver mais; é preciso viver melhor, com mais qualidade...

       A sexualidade feminina foi reprimida por muitos séculos, vitimada pela opressão masculina. Talvez, a expressão plena dessa sexualidade faça parte do que, para elas, seja “viver melhor”. Inúmeros fatores (físicos, psíquicos e sócio-culturais) podem afetar o relacionamento íntimo dos casais, mas o mais importante é que a mulher, em qualquer idade, não cultive falsos preconceitos sobre si mesma.

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  Para saber mais sobre este assunto:

  Livro: Sexualidade feminina: história, cultura, família, personalidade & psicodrama, por Ana Maria Ramos Seixas - Publicado por Senac, 1998.

  Sexualidade e TRH - Prof. Dr. Lucas Vianna Machado e Dra. Iêda Pinheiro Machado.

  Freqüência da atividade sexual em mulheres menopausadas - Dino R. S. De Lorenzi et al. - Revista da Associação Médica Brasileira, vol.52 no.4 São Paulo July./Aug. 2006.

  Avaliação da capacidade orgástica em mulheres na pós-menopausa - Sonia Regina L. Penteado et al. - Revista da Associação Médica Brasileira, vol.50 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2004.

  Sexualidade e menopausa: crise da reprodução ou produção da crise? - Marise B. Jurberg & Paulo R. B. Canella - Revista Brasileira de Sexualidade Humana - Volume 8 - Número 1 - Janeiro a Junho de 1997.

  Sexualidade no período climatérico: situações vivenciadas pela mulher - Márcia Rodrigues Fernandez et al. - Revista da Escola de Enfermagem da USP - vol.39 no.2 São Paulo June 2005.

  CLIMATÉRIO E SEXUALIDADE: A COMPREENSÃO DESSA INTERFACE POR MULHERES ASSISTIDAS EM GRUPO - Deíse Moura de Oliveira et al. - Texto Contexto Enferm., Jul-Set; 17(3): 519-26, 2008.

  A PRÁTICA SEXUAL E O ENVELHECIMENTO - Clícia Valim Côrtes Gradim et al. - Cogitare Enferm. Abr/Jun; 12(2):204-13 -2007.

  SEXUALIDADE NA TERCEIRA IDADE: NÃO POSSO, NÃO QUERO OU NÃO DEVO. - Nely Maria dos Santos Castro et al. - Revista de Iniciação Científica Newton Paiva 2001 - 2002.

  Hormones and Sexuality During Transition to Menopause - Clarisa R. Gracia et al. - OBSTETRICS & GYNECOLOGY, VOL. 109, NO. 4, APRIL 2007.

  Prevalence of sexual dysfunction and its associated factors in women aged 40-65 years ... - Ana L. R. Valadares - Clinics vol.63 no.6 São Paulo 2008.

Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)