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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO II - NÚMERO 13 - ABRIL DE 2004. ÚLTIMA REVISÃO: NOVEMBRO DE 2008.


O QUE É HPV ?

       Nos últimos anos, a sigla HPV foi mencionada inúmeras vezes em revistas femininas e em dezenas de reportagens sobre a saúde da mulher, na televisão, por dois motivos: a descoberta de que o HPV está associado ao câncer do colo do útero, e o lançamento da primeira vacina contra o HPV, com a capacidade de prevenir esse tipo de câncer. Mas, afinal, o que é HPV?

       HPV é a abreviatura, em inglês, de Human Papillomavirus – em português, Papillomavirus humano. Trata-se de uma família de vírus, com mais de 200 subtipos conhecidos, responsáveis por uma ampla gama de lesões na pele e mucosas.

       Até a década de 1980, sabíamos que esses vírus eram os causadores das verrugas comuns e das verrugas geninais (condilomas acuminados). Os condilomas, vulgarmente conhecidos pelo nome de “crista de galo”, pertencem ao grupo das doenças sexualmente transmissívis (DST). A partir de 1982, porém, foram publicados inúmeros trabalhos científicos que constataram a presença de alguns subtipos do HPV em mais de 95% dos casos de câncer do colo uterino, o que aumentou a importância do diagnóstico e da prevenção dessa DST.

As lesões verrucosas podem ter dimensões variadas, de menos de um milímetro a vários centímetros.
Veja, também , as fotogragias do Programa DST & Aids - Min. da Saúde:
verrugas genitais no pênis , na vulva e condiloma gigante.

       Atualmente, os subtipos do vírus são agrupados em duas categorias: os de baixo risco, causadores de lesões benignas (verrugas); e os de alto risco, associados ao câncer cervical, de vulva, vagina e ânus. Na categoria de baixo risco, os mais encontrados são os subtipos 6, 11, 40, 41, 42, 43, 44, 54, 61, 72, 73 e 81; na de alto risco, os subtipos 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 66, 68 e 82. Os tipos 16 e 18 causam aproximadamente 70% de todos os casos de câncer cervical em todo o mundo, enquanto que os tipos 6 e 11 causam a maioria das verrugas genitais tanto em homens quanto em mulheres.

       A transmissão do HPV ocorre, geralmente, pelo contato pele a pele; porém, o contato genital com penetração (relações sexuais vaginais ou anais) é a forma de transmissão mais freqüente. Outros tipos de contatos sem penetração - orogenital, manual-genital e gênito-genital - também são transmissores.

       Tendo se instalado no organismo, o vírus pode: 1) permanecer silencioso - por semanas ou décadas-, sem causar qualquer tipo de sintoma que alerte os portadores sobre a sua presença (fase latente e subclínica); 2) ser eliminado pela ação do sistema imunológico de defesa (anticorpos); ou 3) causar alterações no DNA das células, provocando tumores benignos (verrugas) ou malignos.

       Estima-se que uma em cada quatro mulheres brasileiras seja portadora do HPV. Essa proporção, entretanto, tende a aumentar nos próximos anos, pois a infecção pode ser absolutamente assintomática, tanto para o homem quanto para a mulher. Isto é, ambos transmitem o vírus, nas relações sexuais, sem saber que são portadores !

       Apenas 20% dos pacientes infectados apresentam verrugas visíveis. Os 80% restantes abriga o vírus sob a forma latente ou subclínica, o que requer exames especiais para o seu diagnóstico.

       Felizmente, menos de 3% das portadoras do HPV irá desenvolver um câncer do colo uterino. A grande maioria delas irá eliminar o vírus, produzindo anticorpos específicos. A imunidade para um certo subtipo de HPV, porém, não protege quanto aos demais, no caso de uma reinfecção.

       O exame de Papanicolaou (preventivo anual) e a colposcopia – observação da vulva, da mucosa da vagina e do colo do útero, sob lentes de aumento - são fundamentais para detecção precoce do HPV, pois, antes de causar qualquer sintoma, esses vírus promovem alterações celulares microscópicas e/ou lesões minúsculas no colo uterino e vagina, somente vistas por esses procedimentos. Essas lesões precursoras (superficiais) podem ser tratadas antes que se tornem um câncer invasivo. A consulta regular (anual) ao ginecologista é, portanto, a atitude mais prudente a ser tomada quando se fala em prevenção do câncer do colo uterino.

      O tratamento das verrugas genitais é uma prática cotidiana nos consultórios dos ginecologistas. A terapêutica mais adequada irá depender do número e das dimensões das verrugas; e se a paciente está grávida ou não. A aplicação local de substâncias cáusticas (ácido tricloroacético, podofilina), pomadas a base de imiquimod ou cidofovir, o interferon alfa-2B, a cauterização, a crioterapia, a cirurgia de alta freqüência e o laser compõem o armamentário terapêutico atualmente disponível.

       Não há motivo para pânico quando o exame de Papanicolaou (exame preventivo) demonstra "alterações celulares compatíveis com a presença do HPV", pois, como já dissemos, menos de 3% das portadoras do HPV poderá desenvolver lesões pré-malignas ou um câncer do colo uterino.  Esse resultado é apenas um aviso, um alerta às pacientes para que estas não negligenciem o necessário acompanhamento por seus médicos assistentes. Estes, por sua vez, deverão monitorar a evolução desses achados ao longo do tempo.

       Atualmente, existem a venda no Brasil duas vacinas diferentes contra o HPV: uma quadrivalente contra os HPVs tipos 6,11,16 e 18 (os tipos 6 e 11 causam a maioria das verrugas genitais; os tipos 16 e 18 são encontrados em aproximadamente 70% de todos os casos de câncer cervical); a outra vacina é dirigida apenas aos HPVs 16 e 18. O preços dessas vacinais ainda é um fator limitante para a vacinação de toda a população de risco (mulheres do dos 9 aos 26 anos de idade, principalmente as menina, antes do iniciarem primeiro contato sexual). Esperamos que, em breve, uma vacina contra o HPV passe a integrar o calendário de Vacinação do Programa Nacional de Imunizações. Esta medida será muito importante para diminuir a mortalidade por câncer cervical no Brasil. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), essa doença será reponsável pela morte de 18.680 mulheres, em 2008.

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Para saber mais sobre este assunto:

   Prevalência do HPV em mulheres rastreadas para o câncer cervical - Cristina Helena Rama & cols. - Rev. Saúde Pública vol.42  no.1 São Paulo Feb. 2008.

   Infecções causadas pelos Papilomavírus humanos: atualização sobre seus aspectos virológicos, epidemiológicos e diagnóstico.  Silvia M B Cavalcanti e Fernanda N Carestiato - J bras Doenças Sex Transm 18(1): 73-79, 2006

   Vacinas profiláticas para o HPV - Sophie F. M. Derchain e Luis O. Z. Sarian - Rev Bras Ginecol Obstet. 2007; 29(6):281-4.

   Human Papillomavirus - Dr. Peter A Gearhart, MD. - eMedicine, 2007.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)