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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO I - NÚMERO 12 - MARÇO DE 2004. ÚLTIMA REVISÃO: FEVEREIRO DE 2010.


ANTICONCEPÇÃO DE EMERGÊNCIA: A PÍLULA DO DIA SEGUINTE

       A anticoncepção de emergência é empregada para prevenir a gravidez após uma relação sexual acidentalmente desprotegida. O chamado sexo casual, a ruptura ou deslocamento da “camisinha”, o descontrole do parceiro na prática do coito interrompido (ejaculação intravaginal) e o estupro, nas proximidades do período fértil da mulher, estão entre as circunstâncias em que este procedimento é aplicado.

       Existem quatro métodos para a anticoncepção de emergência: a inserção de um DIU (Dispositivo Intra-Uterino) até 5 dias após o coito; a ingestão de altas doses de uma associação de hormônios (estrógenos e progestógenos, chamado método de Yuzpe), a ingestão – também em altas doses - de apenas progestógenos (levonorgestrel) e, o mais recentemente, a ingestão de um comprimido contendo 30 mg de acetato de ulipristal (um modulador seletivo sintético do receptor da progesterona). Em nosso meio, por motivos técnicos e econômicos, a inserção do DIU não é cogitada para essa finalidade. O acetato de ulipristal, vendido na Europa sob o nome de ellaOne™, ainda não é comercializado no Brasil. Neste artigo, falaremos sobre as duas outras opções, além de tecer rápidos comentários sobre o ellaOne™.

       O método de Yuzpe, assim chamado por ter sido objeto de estudo do médico canadense, Dr. Albert Yuzpe, cujas pesquisas foram publicadas na metade dos anos 1970, consiste na ingestão de 0,2 mg de etinilestradiol associados a 2 mg de DL-norgestrel (equivalente a 1 mg de levonorgestrel), divididos em duas doses que são administradas com um intervalo de 12 horas - a primeira dose (0,1 mg de etinilestradiol associados a 1 mg de DL-norgestrel (equivalente a 0,5 mg de levonorgestrel) deve ser tomada tão cedo quanto possível, dentro das 72 horas que se seguem ao coito desprotegido.

       Essa associação de hormônios é encontrada em vários anticoncepcionais orais em dosagens que são quatro, oito ou dez vezes menores (por comprimido). Nos Estados Unidos, é comercializado um produto específico para esta finalidade  - o Preven™: caixa com quatro comprimidos contendo, cada um, 0.25 mg de levonorgestrel e 0.05 mg de etinilestradiol. No Brasil, pelo menos duas marcas de anticoncepcionais orais combinados - vendidos em cartelas com 21 comprimidos - têm composição idêntica ao Preven™. Neste caso, são ingeridos - em cada dose - dois comprimidos. No caso dos contraceptivos de mais baixa dosagem - contendo 0,03 mg de etinilestradiol e 0.15 mg de levonorgestrel (várias marcas) são tomados oito comprimidos (em duas doses de quatro, com intervalo de 12 horas). Quando a composição do anticoncepcional é de 0,02 mg de etinilestradiol e 0.10 mg de levonorgestrel são ingeridos dez (!) comprimidos, sempre em duas tomadas (5 + 5).

       Os efeitos colaterais do método Yuzpe (náuseas, vômitos, dores de cabeça, sensibilidade mamária, etc...) são mais intensos do que quando apenas um hormônio (levonorgestrel) é utilizado na contracepção de emergência. Além disso, observou-se que a eficácia (prevenção da gravidez) era maior com a administração exclusiva do progestógeno (até 95%) do que quando este era associado ao etinilestradiol (63 a 79%). Assim sendo, "a pílula do dia seguinte" teve uma segunda versão, a partir da segunda metade da década de 1990: a ingestão de 1,5 mg de levonorgestrel, divididos em duas doses de 0,75 mg a serem tomadas com 12 horas de intervalo. Mais recentemente, a "pílula pós-coito" é comercializada sob a forma de um único comprimido contendo 1,5 mg de levonorgestrel.  Além de ser  mais prática para a usuária, esta formulação tem a mesma eficácia do esquema com dois comprimidos (95%, quando utilizado nas primeiras 24 horas; 85%, quando a ingestão se dá entre 24 e 48 horas após a relação, e 58%, se tomado após 48 horas).

Atualmente, a Organização Mundial de Saúde remcomenda 1,5 mg de levonorgestrel, em dose única, para a anticoncepção de emergência.

       Essas altas doses de hormônios atuam sobre o organismo feminino, interferindo no mecanismo da ovulação (adiamento / inibição), modificando a motilidade das trompas e alterando as características bioquímicas e histológicas do endométrio (camada que forra o interior do útero, que acolhe o óvulo fertilizado, e que se renova após o sangramento menstrual), criando um ambiente impróprio para a implantação do óvulo, caso haja fecundação. O súbito aumento (e queda) dos níveis hormonais também interfere no padrão menstrual. A data esperada da menstruação pode ser antecipada ou adiada (em até uma semana), e a intensidade do fluxo pode ser maior ou menor que a habitual, dependendo da fase do ciclo em que este método é utilizado (pré ou pós-ovulatória). Na maioria dos casos, entre três e oito dias após a tomada, é esperado um sangramento. A não ocorrência desse sangramento, após três semanas, pode ser um indício de gravidez. Aliás, vale lembrar que, a anticoncepção de emergência - com levonorgestrel - não tem qualquer tipo de ação sobre uma gravidez já instalada; portanto, não é abortiva.

        O acetato de ulipristal - ellaOne -, possui dois principais diferenciais em relação ao levonorgestrel: enquanto a maior eficácia do levonorgestrel (1,5mg, dose única) é alcançada dentro das primeiras 72 horas (três dias) após a relação desprotegida, a maior eficácia do acetato de ulipristal (30mg, dose única) se prolonga por até 120 horas (cinco dias) após a relação. Outro diferencial importante é que, em se tratando de um modulador seletivo do receptor da progesterona, o ellaOne™ está absolutamente contraindicado quando houver suspeita de uma gravidez estabelecida. É possível que esta característica farmacológica impeça que este medicamento seja comercializado no Brasil. O parentesco bioquímico do ulipristal com o mifepristone será alvo, em nosso país, de facções religiosas radicais poderosas que exaltarão as possíveis propriedades abortivas do acetato de ulipristal.

       A anticoncepção de emergência, como o nome indica, é um recurso de exceção. Por esse motivo, ele só deve ser utilizado em circunstâncias excepcionais, não substituindo - de forma alguma - os outros métodos anticoncepcionais disponíveis.

      Numa relação sexual desprotegida, a anticoncepção de emergência é um recurso útil; uma espécie de segunda chance para que as mulheres evitem uma gravidez indesejada. Apesar da escassez de dados estatísticos em nosso país, estima-se que mais de um milhão de abortos clandestinos são praticados anualmente no Brasil, acarretando cerca de 250.000 internações, por complicações hemorrágicas e infecciosas, na rede hospitalar do SUS.

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Para saber mais sobre este assunto:

    Anticoncepção de Emergência: perguntas e respostas para profissionais de saúde. Área Técnica Saúde da Mulher do Ministério da Saúde. 2005.

    Adolescência e contracepção de emergência: Fórum 2005 - Prof. Dra. Maria Ignez Saito e Prof. Dra. Marta Miranda Leal - Rev.  paul. pediatr. vol.25 no.2 São Paulo June 2007.

    Atendimento integral às mulheres vítimas de violência sexual: Centro de Assistência Integral à Saúde da Mulher, Universidade  Estadual de Campinas - Aloisio José Bedone e Anibal Faúndes. Cad. Saúde Pública vol.23 no.2 Rio de Janeiro Feb. 2007

    Levonorgestrel for Emergency Contraception - World Health Organization - Fact Sheet - March 2005.

    Emergency Contraception - David G. Weismiller, M.D., SC.M. - American Academy of Family Physicians - 2004.

   Ulipristal vs Levonorgestrel for Emergency Contraception - Anna F Glasier MD et al.The Lancet, Volume 375, Issue 9714, Pages  555 - 562, 13 February 2010.

   Ulipristal Acetate Taken 48-120 Hours After Intercourse for Emergency Contraception - Fine, Paul MD et al. - Obstetrics &  Gynecology: February 2010 - Volume 115 - Issue 2, Part 1 - pp 257-263.

 

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)