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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO I - NÚMERO 9 - DEZEMBRO DE 2003. ÚLTIMA REVISÃO: MAIO DE 2009.


SÍNDROME DA TENSÃO PRÉ-MENSTRUAL (STPM)

         A síndrome da tensão pré-menstrual (STPM), popularmente chamada de TPM, é um distúrbio cíclico que afeta as mulheres nos dias que antecedem a menstruação e que cessa por completo com o início do fluxo ou, no máximo, dois dias depois. Descrita desde a época de Hipócrates (460 a.C.), esta síndrome, apesar de muito estudada, ainda é pouco compreendida pelos médicos quanto às suas causas.

         A STPM tem início entre dois e dez dias antes das menstruações, manifestando-se por um amplo espectro de sintomas físicos e psicoemocionais (mais de 150), cuja severidade pode transformar o período pré-menstrual em um verdadeiro calvário feminino, trazendo sérias repercussões ao relacionamento afetivo intra e interpessoal (cônjuge, filhos, amigos, vizinhos, chefes e colegas de trabalho). Dependendo da intensidade dos sintomas, podemos dizer que a TPM atinge entre 5% e 95% das mulheres em idade fértil. O transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) é uma forma grave de TPM que acomete cerca de 5% das mulheres. Apresenta-se com sintomas predominantemente emocionais (irritabilidade, impulsividade, tensão, labilidade afetiva), o que traz grandes prejuízos sócio-funcionais para a mulher. O tratamento da TDPM requer assistência psiquiátrica.

        O espectro de sinais e sintomas, assim como a severidade dos mesmos, é uma característica pessoal de cada paciente. O número e a intensidade dos sintomas também podem sofrer variações de um ciclo para outro numa mesma mulher. Certos sintomas acometem mais frequentemente algumas mulheres do que outras. Se agruparmos esses sintomas, podemos caracterizar - didaticamente - quatro categorias básicas de TPM: TPM-A, TPM-H, TPM-C e TPM-D.

       Na TPM-A, sobressaem a ansiedade, a irritabilidade, a agressividade, significativa instabilidade afetiva e a tensão nervosa (raiva imotivada, sensação de estar “no limite”, "com os nervos à flor da pele" ) e sentimentos subjetivos de descontrole emocional.

       Na TPM-H, prepondera a retenção hídrica que se manifesta por edema (inchaço das mãos e tornozelos), aumento do volume do abdome, dores mamárias e ganho de peso.

       Na TPM-C, a cefaléia (dor de cabeça e enxaqueca) destaca-se entre os demais desconfortos e, geralmente, vem acompanhada de fadiga, palpitações, aumento do apetite e marcante preferência por alimentos doces.

       Na TPM-D, o sintoma mais importante é a depressão que, na maioria das vezes, está associada  à insônia ou hipersonia, choro fácil, sentimentos de falta de esperança ou pensamentos autodepreciativos, desânimo, esquecimento, letargia, acentuada falta de energia, dificuldade de concentração e confusão mental.

A STPM tem início entre
dois e dez dias antes das mentruações, manifestando-se por um amplo epectro de sintomas físicos e psicoemocionais (mais de 150), cuja severidade pode transformar o período pré-menstrual em um
verdadeiro calvário feminino.

       Qual é a causa da TPM ?

       Ninguém sabe ao certo qual é a causa da TPM. A única certeza que temos é que a ovulação, ou melhor, os hormônios da fase pós-ovulatória (estrogênio e progesterona) são fundamentais no desencadeamento dessa síndrome, pois as mulheres que, por algum motivo, tiveram os ovários retirados cirurgicamente durante a fase fértil, ou as que usam anticoncepcionais hormonais, ou ainda, as que estão na pós-menopausa ..., enfim, as mulheres que não ovulam não têm TPM!!

       Existem diversas teorias que tentam explicar a origem desse distúrbio. Entretanto, nenhuma delas o faz de maneira completa e satisfatória. Entre as teorias que tentam explicar as causas da TPM podemos citar a do desequilíbrio hormonal (excesso de estrogênio e deficiência de progesterona), a deficiência vitamínica (A, B6, E), a predisposição genética, alterações dos níveis de ácidos graxos essenciais e das prostaglandinas, distúrbio dos neurotransmissores cerebrais (serotonina, ácido gama-aminobutírico), deficiência de endorfinas, baixos níveis de glicose no sangue, deficiência de cálcio, magnésio, zinco ou cobre; excesso de prolactina, alergia aos hormônios, retenção de líquidos e oscilações dos níveis de hormônio tireoidiano.

       Sabe-se que não se trata de um desequilíbrio na quantidade de hormônios, mas da maneira pela qual eles afetam especificamente o organismo de cada mulher. A maioria das mulheres que sofrem com a TPM tem dosagens hormonais dentro dos limites da normalidade. A hipótese mais provável é que exista uma convergência de vários fatores para a eclosão dessa síndrome, inclusive aqueles relacionados à história psicossocial da paciente.

       O diagnóstico da STPM é eminentemente clínico. Não há um exame de laboratório que nos auxilie nessa tarefa. A elaboração do "diário do ciclo menstrual" - no qual são registrados os sintomas físicos e emocionais por três meses - é um recurso muito útil para dar maior consistência à história clínica. Há necessidade de distiguir a TPM de outras doenças e disturbios com sintomas semelhantes que se exacerbam no período pré-menstrual (depressão), mas que estão presentes durante todo o ciclo.

       O tratamento da TPM é sintomático e irá depender do grau de desconforto com que este distúrbio atinge cada mulher. Nos casos leves, a adoção de alguns hábitos saudáveis, como a atividade física regular (caminhadas, ginástica, natação), a prática de esportes, a menor ingestão de sal, de café e chá poderão proporcionar algum alívio às pacientes. Nos casos moderados, buscamos abolir os sintomas de acordo com a(s) categoria(s) de TPM apresentada(s) pela paciente. Ansiolíticos para a TPM-A, diuréticos na TPM-H, antidepressivos na TMP-D, ou uma associação desses medicamentos nos casos em que há uma mesclagem dos sintomas. Nos casos mais graves - limítrofes do TDPM -, em que as alterações comportamentais têm grande impacto no relacionamento familiar e no ambiente de trabalho, a colaboração de um colega psiquiatra é fundamental.

        Em outubro de 2006, ratificando a evidência científica de que "quem não ovula não tem STPM nem TDPM", a US Food and Drug Administration (FDA) aprovou uma nova indicação, em bula, para um anovulatório oral (contendo 20 mcg de etinilestradiol e 3 mg de drospirenona). Esse anticoncepcional já tinha sido aprovado pelo mesmo órgão gover- namental dos Estados Unidos como terapêutica auxiliar da acne para jovens que simultaneamente necessitassem de proteção contraceptiva. O tratamento dos sintomas físicos e emocionais do transtorno disfórico pré-menstrual, em mulheres que não desejam engravidar, passou a ser mais uma indicação dessa associação hormonal. No Brasil, esse medicamento recebeu autorização da ANVISA para ser comercializado a partir de maio de 2007. Para ANVISA, a indicação, em bula, resume-se a um "contraceptivo oral, com efeitos antimineralocorticóide e antiandrogênico que beneficiam também as mulheres que apresentam retenção de líquido de origem hormonal e seus sintomas".

       A TPM é uma espécie de esfinge para a Ginecologia, porquanto ainda imersa em mistérios e enigmas desafiadores. Nossa compreensão do problema permanece parcial, porém os conhecimentos hoje disponíveis já nos facultam tratá-lo de maneira adequada, diminuindo as repercussões desagradáveis que as flutuações hormonais acarretam para a existência feminina.

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  Para saber mais sobre este assunto:

   Síndrome da tensão pré-menstrual – o estado atual dos conhecimentos - César Eduardo Fernandes et al. - Arquivos Medédicos do ABC, v. 29 no 2 Jul/Dez 2004.

   Efeitos dos esteróides sexuais sobre o humor e a cognição - Ana Carolina J. S. Rosa e Silva et al. - Revista de Psiquiatria Clínica, vol.33 no.2 São Paulo 2006.

   Hormônios sexuais femininos e transtornos do humor - André B. Veras et al. - Jornal Brasileiro de Psiquiatria - vol. 54(1): 57-68, 2005.

   Síndrome Pré-menstrual: Prevalência e Fatores Associados na População Urbana de Pelotas - DISSERTAÇÃO DE MESTRADO - CELENE MARIA LONGO DA SILVA, Novembro de 2004.

   Transtorno disfórico pré-menstrual revisão – conceito, história, epidemiologia e etiologia - Gislene C. Valadares et al. - Revista de Psiquiatria Clínica, vol.33 no.3 São Paulo 2006.

   Tratamento da disforia pré-menstrual com antidepressivos: revisão dos ensaios clínicos controlados - Elie Cheniaux - Jornal Brasileiro de Psiquiatria, vol.55 no.2 Rio de Janeiro 2006.

   Premenstrual syndrome and premenstrual dysphoric disorder: guidelines for management - Meir Steiner - Journal of Psychiatry & Neuroscience, 2000 November; 25(5): 459–468.

   Premenstrual dysphoric disorder: burden of illness and treatment update - Teri Pearlstein et al. - Journal of Psychiatry & Neuroscience. 2008 July; 33(4): 291–301.

   Treatment of premenstrual dysphoric disorder (PMDD) with a novel formulation of drospirenone and ethinyl estradiol - Domenico De Berardis et al. - Therapeutics and Clinical Risk Management 2007:3(4) 585–590.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)