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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO I - NÚMERO 7 - OUTUBRO DE 2003. ÚLTIMA REVISÃO: MAIO DE 2009.

DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS ( I )

       Os resultados da pesquisa do Projeto de Sexualidade da Universidade de São Paulo (PROSEX-USP), realizada entre novembro de 2002 e fevereiro de 2003, apontam que mais da metade das mulheres brasileiras, entre 19 e 55 anos, sofrem de algum tipo de disfunção sexual. As principais queixas nesse sentido dizem respeito a ausência de desejo, dificuldade de alcançar o orgasmo, falta de excitação ou dor durante a penetração.

       As primeiras teorias para a compreensão da sexualidade humana surgiram na Grécia, cerca de 500 anos antes de Cristo, quando Platão, Aristóteles e Hipócrates manifestaram seus conceitos sobre este assunto. Mais recentemente, os estudos de Sigmund Freud, Alfred Kinsey, William Masters e Virginia Johnson lançaram os alicerces para uma nova especialidade médica, a Sexologia, reconhecida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina, a partir de 1980.

       Sigmund Freud foi o pioneiro na exploração   dos labirintos da mente, buscando esclarecer os mecanismos psicoemocionais (conscientes, mas principalmente inconscientes) que norteiam os impulsos sexuais de homens e mulheres. Segundo ele, a libido (energia dos instintos sexuais) existe desde o nascimento e o desenvolvimento psico-sexual de cada indivíduo, até atingir a idade adulta, passa por várias fases evolutivas (oral, anal, fálica, de latência e genital).

       No âmbito da fisiologia sexual, William Masters e Virginia Johnson realizaram investigações científicas por 11 anos, registrando, em laboratório, as reações físicas que ocorrem quando o homem e a mulher respondem à estimulação erótica. Em 1966, este casal de cientistas publicou um livro cuja leitura ainda é obrigatória para todos os profissionais que se interessam por esse assunto: “A Resposta Sexual Humana”. Nele, Masters e Johnson demonstram que a resposta sexual de homens e mulheres é linear e sequencial, dividindo-se em quatro fases. De uma forma muito simples e resumida poderíamos dizer que a primeira fase é a da excitação (ereção nos homens, turgência clitoridiana e lubrificação vaginal nas mulheres), que progride para a fase de platô (em que a excitação se intensifica), que culmina com o orgasmo ou clímax (extrema sensação de prazer, acompanhada de contrações reflexas dos músculos do assoalho pélvico com intervalos de 0,8 segundos de intervalo, ejaculação nos homens), encerrando-se com a fase de resolução (os genitais retornam ao estado anterior ao da excitação, relaxamento, detumescência do pênis). A mulher tem a capacidade de obter vários orgasmos seguidos. No homem, isso não é possível, pois há um período refratário depois de cada clímax.

      Em 1974, a psicanalista e sexóloga Helen Kaplan reformulou o ciclo descrito por Masters e Johnson, afirmando que o desejo (a motivação, a invocação de fantasias sexuais, com antecipação mental do prazer que o contato sexual pode oferecer) é uma fase que antecede à excitação e que o platô era apenas um prolongamento da fase de excitação. Portanto, segundo Kaplan, o ciclo da resposta sexual teria as seguintes fases: desejo, excitação, orgasmo e resolução. Com base neste modelo linear, progressivo e sequencial, as disfunções sexuais femininas foram classificadas em quatro grandes categorias: distúrbios do desejo (desejo hipoativo e aversão sexual), distúrbios da excitação, do orgasmo (anorgasmia) e distúrbios sexuais dolorosos (dipareunia e vaginismo).

       Durante o Segundo Consenso Internacional de Medicina Sexual, realizado em Paris, em 2003, a Dra. Rosemary Basson, Diretora do Centro de Medicina Sexual do Vancouver General Hospital, propôs uma nova classificação para as disfunções sexuais femininas (veja tabela abaixo).

Disfunções Sexuais Femininas
Categoria
Definição
Transtornos do desejo
Ausência ou diminuição do interesse ou do desejo sexual, ausência pensamentos ou fantasias sexuais. Falta de desejo em resposta aos estímulos eróticos de qualquer espécie. A motivação para tentar se excitar sexualmente é mínima ou inexistente. A falta de interesse é considerada mais intensa do que a esperada para o avançar da idade. O desejo é muito menor do que o observado em relacionamentos com a mesma duração.
Transtornos subjetivos da excitação
Ausência ou diminuição de sentimentos de excitação sexual de qualquer tipo, apesar dos mais diversos estímulos recebidos; no entanto, a lubrificação vaginal e/ou outros sinais de resposta física (objetiva) podem ocorrer.
Trantornos da excitação genital
Queixas de diminuição (ou ausência) da excitação sexual genital (lubrificação vaginal, engurgitamento clitoridiano, apesar dos mais diversos estímulos recebidos (sensações reduzidas em resposta às carícias da genitália); entretanto, a excitação sexual subjetiva (sentimentos) ocorre com estímulos sexuais não-genitais.
Transtornos combinados (subjetivos e genitais) da excitação
Ausência ou diminuição de sentimentos de excitação sexual acompanhadas de queixas de ausência ou insuficiência excitação sexual genital.
Transtornos persistentes da excitação
Excitação genital espontânea, intrusiva e indesejável (formigamento, latejamento) que ocorre na falta de interesse sexual e desejo. A excitação não cessa com orgasmo(s). As sensações podem persistir por horas ou dias.
Transtornos orgásmicos
Apesar de alcançar altos níveis de excitação ( objetiva e subjetivamente) a mulher não atinge o orgasmo. Diminuição acentuada da intensidade orgásmica. Grande demora em chegar ao clímax, apesar de estímulos adequados.
Vaginismo
Dificuldade (ou mesmo, impossibilidade) persistente e recorrente à penetração vaginal, apesar da mulher manifestar o desejo de participar.
Dispareunia
Dor persistente e/ou recorrente durante ou após a penetração peniana.

        Esta classificação foi baseada num modelo de reposta sexual feminina, criado pela Dra. Basson, no qual observa-se o grande número, complexidade e interrelações de fatores que intervem na eclosão do desejo / excitação. Segundo essa pesquisadora, as razões pelas quais a mulher se sente motivada a ter um relacionamento sexual incluem a vontade de expressar amor, receber e compartilhar prazer físico, sentir-se emocionalmente envolvida, satisfazer o parceiro e aumentar o seu bem-estar. Essas razões, quando positivamente influenciadas por fatores biológicos e psicológicos, podem servir de gatilho para o estado subjetivo de excitação, progredir para a excitação genital e, a seguir, caminhar para a satisfação sexual (com ou sem orgasmo) ou simplesmente reforçar os laços de intimidade e envolvimento amoroso com o parceiro. Sob a ótica desse novo modelo, a excitação pode anteceder o desejo, contra- riando o modelo clássico (linear) proposto por Masters e Johnson / Kaplan.

       As disfunções sexuais femininas também podem ser classificadas quanto à duração em primária (sempre ocorreu) e secundária (adquirida ao longo da vida); e quanto às circunstâncias, em situacionais (acontecem somente em determinadas situações e com certos parceiro) e generalizadas ( em todas as situações e/ou com todos os parceiros).

       As causas das disfunções sexuais femininas incluem – isolada ou associadamente - problemas orgânicos (doenças neurológicas, músculo-esqueléticas, distúrbios hormonais, o uso de medicamentos, drogas psicotrópicas, etc.), psicológicos (autoestima deficiente, educação repressiva, abuso sexual na infância, etc.), dificuldades afetivas com o parceiro (falta de diálogo, ressentimentos, conflitos financeiros, a rotina, etc.) e o desconhecimento do potencial erótico do próprio corpo.

       O conceito de pecado e imoralidade reprimiram, até a metade do século XX, a expressão da sexualidade feminina, reservando para a mulher um papel absolutamente passivo, contido e submisso, diante das normas de um mundo estritamente masculino; um mundo repleto de dogmas vitorianos e de tabus religiosos no qual o fantasma da maternidade se escondia sob os lençóis da cama dos casais. Com o aparecimento da pílula anticoncepcional, a mulher deixou de estar sob a ameaça de uma gravidez “acidental”, passou a ter o controle da sua fertilidade, o que lhe permitiu transpor a sua condição de mero objeto do prazer masculino. O livro “O Relatório Hite: um Estudo da Sexualidade Feminina”, publicado pela primeira vez em 1976, é um documento desta transformação.

      Cada ser humano traz dentro de si um universo de interações entre seu corpo e sua mente, encimado pelos padrões culturais – e tabus – de sua época. O relacionamento íntimo entre um homem e uma mulher reveste-se de especial complexidade, visto que dois universos (biopsicosociais) distintos se põem em contato, buscando a troca de impressões sensoriais e de sentimentos na busca do prazer a dois.  

      O tratamento das disfunções sexuais femininas irá depender do diagnóstico firmado para cada caso. Apesar de ser uma ciência relativamente nova, a Terapia Sexual é um instrumento valioso para auxiliar os casais que têm dificuldades nessa área fundamental do relacionamento humano. O primeiro passo – o mais difícil – para o diagnóstico e o tratamento das disfunções sexuais é admitir que o problema existe; o segundo é buscar ajuda profissional para resolvê-lo.

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  Para saber mais sobre este assunto:

   Abordagem das disfunções sexuais femininas - Lúcia Alves da Silva Lara et al. - Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, vol.30 no.6 Rio de Janeiro June 2008.

   Aspectos diagnósticos e terapêuticos das disfunções sexuais femininas - CARMITA H. N. ABDO - Revista de Psiquiatria Clínica, 33 (3); 162-167, 2006.

   ASPECTOS FISIOLÓGICOS E DISFUNCIONAIS DA SEXUALIDADE FEMININA - Heitor Hentschel et al. - Revista do Hospital de Clínicas de Porto Aalegre;26(2) 2006

   Descobrimento sexual do Brasil: para curiosos e estudiosos. Carmita Helena Najjar Abdo - Publicado por Grupo Editorial Summus, 2004.

   Livro: Disfunções Sexuais - Cassandra Pereira França - Publicado por Casa do Psicólogo, 2005.

   Sexualidade feminina: questões do cotidiano das mulheres - Wânia R. Trindade e col. - Texto & Contexto - Enfermagem, vol.17 no.3 Florianópolis July/Sept. 2008.

   SEXUALIDADE NA GESTAÇÃO: MITOS E TABUS - Andréa Lúcia G. C. T. Flores e col. - Revista Eletrônica de Psicologia - Ano I Número 1, Julho de 2007.

   Sexualidade no climatério - Lucas Vianna Machado e col. - http://www.lucasmachado.com.br/.

   Adaptação transcultural do Female Sexual Function Index - Rodolfo de Carvalho Pacagnella e cols. - Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(2):416-426, fev, 2008.

   O Ginecologista e a Sexualidade - Nelson Vitiello - Revista Brasileira de Sexualidade Humana 4(2):1993.

   Avaliação da capacidade orgástica em mulheres na pós-menopausa - Sonia Regina L. Penteado et al. - Revista da Associação Médica Brasileira, vol.50 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2004.

   Women's sexual dysfunction: revised and expanded definitions - Rosemary Basson - Canadian Medical Association Journal, May 10, 2005; 172 (10).

   Diagnosis and Treatment of Female Sexual Dysfunction - JENNIFER E. FRANK et al. - American Academy of Family Physicians - Volume 77, Number 5, March 1, 2008.

   Assessment & management of sexual problems in women - Kevan Wylie - Journal of The Royal Society of Medicine, Volume 100, Number 12, Pp. 547-550, 2007.

   Livro: Women's sexual function and dysfunction - Irwin Goldstein et al. - Publicado por Taylor & Francis, 2006.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)