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Página inicial Dr. Carlos Antônio da Costa
Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO I - NÚMERO 5 - AGOSTO DE 2003. ÚLTIMA REVISÃO: NOVEMBRO DE 2008.


DOR PÉLVICA

       A dor pélvica é um dos sintomas que mais atingem (e preocupam) a mulher, sendo responsável por quase um terço das queixas nos consultórios de ginecologia. Suas causas, porém, não se restringem apenas aos órgãos genitais internos (útero, tubas e ovários), podendo envolver também o aparelho urinário (ureteres e bexiga), os intestinos, além dos ossos, articulações, músculos e nervos situados na metade inferior do tronco.

       Por haver quase uma centena de causas para a  “dor no baixo ventre”, desvendar a sua origem torna-se, algumas vezes, um verdadeiro desafio ao tirocínio clínico do médico, requerendo deste uma minuciosa investigação do problema.

       A maneira como se instala a dor (aguda, crônica ou cíclica); sua intensidade (forte ou fraca, interferindo ou mesmo impedindo as atividades cotidianas); a forma como é percebida pela paciente (em pontada, em fisgada, em queimação, em peso, em cólica, etc.); sua relação com o período menstrual (antes, durante, após, ou no meio do ciclo); sua associação (ou não) com as relações sexuais; a presença (ou ausência) de outros sintomas como febre, corrimento vaginal, dificuldade para urinar, diarréia, prisão de ventre, aumento do volume abdominal, entre outros, nos fornecem pistas valiosas sobre o órgão afetado, orientando o nosso raciocínio para o diagnóstico correto.

       Nas dores agudas (de início súbito) e de intensidade progressiva, existe sempre a possibilidade de tratar-se de uma emergência cirúrgica (apendicite, torção de cisto ovariano, ruptura de uma gravidez tubária); hipótese esta a ser confirmada (ou não) pelo exame físico e pelos exames complementares que incluem: exames de sangue, de urina, raios X, ultra-sonografia, tomografia ou, até mesmo, a ressonância magnética.

      As dores periódicas, associadas a um determinado momento do ciclo menstrual, podem ter significados variados que vão desde as conhecidas cólicas que acompanham o fluxo - e que atormentam a vida de 50% das mulheres em idade fértil -, até as que se apresentam no meio do ciclo, em peso, que não duram mais que 48 horas, típicas e coincidentes com a ovulação.  

       As dores crônicas (de instalação lenta e com episódios recorrentes há mais de seis meses) podem ter origem nas vísceras pélvicas, nas estruturas ósseas (articulações da coluna lombar) e na parede abdominal (hérnias). Duas entidades, porém, devem ser sempre cogitadas nesses casos: aderências e endometriose.

O dor pélvica crônica está entre
os sintomas que mais afetam a
qualidade de vida da mulher.

       Aderências (ou bridas peritoneais) são como cicatrizes internas que se formam após a inflamação dos tecidos (infecções ou cirurgias no passado). Essas “cicatrizes”, como o próprio nome indica, fazem com que órgãos vizinhos fiquem colados uns aos outros (por exemplo, o ovário adere ao intestino; ou o intestino à bexiga ou à parede do abdome), provocando estiramentos, compressões locais e ... dor.

       A endometriose, por sua vez, resulta da implantação de um tecido semelhante ao que forra o interior do útero (endométrio) em lugares onde, em princípio, ele não deveria existir, como na superfície dos ovários, atrás do útero, etc. Como o endométrio, este tecido sangra durante as menstruações, provocando inflamação, tumores císticos e ... aderências(!). Classicamente, a dor da endometriose é cíclica inicia-se antes da menstruação e se intensifica com a chegada desta (sangramento). A cada ciclo a dor é mais intensa. Com o passar do tempo ela pode se tornar contínua, sendo agravada pelas relações sexuais.

       Na maioria das vezes, a causa da dor pélvica na mulher pode ser esclarecida clinicamente; isto é, por meio das informações prestadas pela paciente, pelas evidências encontradas no exame físico e pelos resultados dos exames complementares (sangue, urina, ultra-som, etc.).  A Natureza, porém, é muito caprichosa em algumas ocasiões, pois o fenômeno doloroso por ser subjetivo nem sempre provoca alterações nos exames. Nesses casos, a videolaparoscopia (um procedimento diagnóstico e terapêutico, no qual se observa diretamente a cavidade abdominal por meio de uma microcâmera) é de inestimável valor na investigação.

       Por último, não podemos deixar de mencionar a dor de origem psicossomática - expressão sutil de profundos conflitos emocionais que povoam as inúmeras vertentes da condição feminina -, que requer especial atenção dos ginecologistas.

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Para saber mais sobre este assunto:

    Abordagem da dor pélvica crônica em mulheres. Prof. Dr. Antonio A. Nogueira, Prof. Dr. Francisco J. C. dos Reis e Prof. Dr. Omero  B. Poli Neto - Rev. Bras. Ginecol. Obstet. vol.28 no.12 Rio de Janeiro Dec. 2006

     Chronic pelvic pain in women - Assessment and management - Marie-Louise Dick, MBBS, FRACGP, MPH. - Australian Family Physician Vol. 33, No. 12, December 2004.


    Ultrasonographical diagnosis of acute gynaecological pain - Tan B P, Ong C L - Singapore Med J 2008; 49(6) : 511

    Acute Nonspecific Abdominal Pain A Randomized, Controlled Trial Comparing Early Laparoscopy Versus Clinical Observation - Mario Morino, MD, Luca Pellegrino, MD, Elisabetta Castagna, MD, Eleonora Farinella, MD, and Patrizio Mao, MD, FACS - Ann Surg. 2006 December; 244(6): 881–888.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)