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Artigos de divulgação científica em ginecologia, escritos pelo
Dr. Carlos Antônio da Costa
TEGO 035/79
ANO I - NÚMERO 1 - ABRIL DE 2003. ÚLTIMA REVISÃO: ABRIL DE 2009.

ANTICONCEPCIONAIS: NOVAS VIAS DE ADMINISTRAÇÃO

        A revisão deste artigo tornou-se absolutamente necessária, pois o conceito do que é novo está associado a um determinado tempo, a uma certa época, a uma data. O que era novo em abril de 2003, não mais o é nos dias atuais. Naquele mês, a minha intenção ao escrever foi a de anunciar o lançamento de dois novos métodos anticoncepcionais: um anel vaginal e um adesivo transdérmico. Ambos haviam sido aprovados pelo FDA (Food and Drug Administration) para venda nos Estados Unidos, respectivamente, em 3 de outubro de 2001 e 20 de novembro de 2001. No Brasil, o adesivo foi colocado nas farmácias em março de 2003 e o anel em maio daquele mesmo ano. Depois de tanto tempo, portando, não há motivo que justifique continuarmos usando o adjetivo novo para falar da inclusão desses dispositivos no armamentário contraceptivo. O mais correto seria nos referirmos a eles como "os mais criativos veículos contraceptivos dos últimos tempos".

       A grande novidade trazida por esses dois artefatos foi a originalidade farmacotécnica. A inibição da ovulação pela combinação de hormônios estrogênios e progestagênios é utilizada pelo ginecologistas desde o surgimento dos primeiros anticoncepcionais orais. Pela primeira vez, porém, essa inibição seria feita por uma associação hormonal que chegaria à corrente sanguínea, não pelo tubo digestivo, mas por meio de um adesivo colocado sobre a pele ou por um anel "de plástico" inserido na vagina. A administração de hormônios por via transdérmica já era bastante conhecida das mulheres que faziam tratamento para os sintomas da perimenopausa, mas, para um anticoncepcional, a pele ainda era uma via inusitada.

      O que é - e como é usado - o adesivo?

      Ele é semelhante a um “band-aid” quadrado (figura 1), de cor beje, com 4,5 cm de lado (20 cm2). Colocado sobre a pele (nádegas, virilha, ombros, mas nunca sobre as mamas), libera, continua e diretamente, dois tipos de hormônios para a corrente sanguínea: um estrogênio (etinilestradiol) e um progestagênio (norelgestromina). A embalagem contém três adesivos, número suficiente para um ciclo de contracepção de quatro semanas; isto é, a usuária irá substituir o adesivo a cada semana, por três semanas; na quarta semana ela não o usará (semana de descanço), nesse intervalo ocorrerá um sangramento semelhante à menstruação. O primeiro adesivo do primeiro ciclo é colocado no primeiro dia da menstruação; os dois adesivos restantes são trocados no mesmo dia da semana em que foi colocado o primeiro (dia de troca). Por exemplo: se o primeiro dia da menstruação for uma terça-feira, este será o dia de troca dos adesivos. A sequência é: três semanas de uso e uma de descanço.

       Apesar de ser um método muito eficaz para prevenir a gravidez, é importante notar que alguns estudos demons- traram que o adesivo pode ser menos eficiente nas mulheres cujo peso é maior que 90 quilos. Os principais efeitos colaterais relatados (apesar de pouco frequentes) foram: irritação na pele, dores nas mamas, dores de cabeça, cólicas menstruais e dores abdominais. ATENÇÃO: caso o adesivo se solte, mesmo que parcialmente, por menos de um dia, ele deve ser substituído imediatamente! Caso ele se solte por mais de um dia, devem ser tomadas outras medidas contraceptivas.

A embalagem contém três adesivos, número suficiente para um ciclo de contracepção de quatro semanas; isto é, a usuária irá substituir o adesivo a cada semana, por três semanas; na quarta semana ela não o usará (semana de descanço), nesse intervalo ocorrerá um sangramento semelhante à menstruação.
Figura 1

       A absorção de hormônios pela mucosa vaginal com finalidade contraceptiva foi estudada no Brasil pelo médico baiano Elsimar Coutinho. Este pesquisador, em setembro 1984, publicou um trabalho na revista médica americana Fertility and Sterility falando sobre a eficácia anticoncepcional da administração vaginal de uma "pílula" contendo 50 mcg de dl-norgestrel e 35 mcg etinilestradiol. Em 1999 foi lançada no Brasil a primeira "pílula" para ser introduzida na vagina por um período e a intervalos semelhantes aos dos anticoncepcionais orais (diariamente, por vinte e um dias, com intervalos de sete dias). A "pílula vaginal", contendo 25 mcg de levonorgestrel e 50 mcg de etinilestraidol, encontra-se à venda nas farmácias brasileiras. O anel, em seu ineditismo, reuniu o potencial absortivo da mucosa vaginal e a farmacotécnica dos implantes subdérmicos. "Implantado" na vagina, este artefato foi concebido para liberar hormônios por três semanas.

        O que é, e como é usado, o anel vaginal?

        Com cerca de 5 cm de diâmetro e 4 mm de espessura (figura 2), é fabricado com um plástico especial -  transparente e maleável. Contém uma associação de dois hormônios: um estrogênio (etinilestradiol) e um progestagênio (etonorgestrel). Introduzido na vagina pela própria usuária, lá deve permanecer por três semanas, tempo durante o qual irá desprender os hormônios nele contidos que serão absorvidos pela mucosa vaginal, inibindo a ovulação. Ao término das três semanas, a paciente retira o anel e, após uma semana de intervalo, introduz um novo anel. Durante a semana de intervalo, ocorre um sangramento semelhante à menstruação.

Introduzido na vagina pela própria usuária, lá deve permanecer por três semanas, tempo durante o qual irá desprender os hormônios nele contidos para serem absorvidos pela mucosa vaginal. Ao término das três semanas, a paciente retira o anel e, após uma semana de intervalo, introduz um novo anel.
Figura 2

          Uma das vantagens do anel é a conceniência de trocá-lo apenas uma vez por mês. Dor de cabeça, náusea, infecções e irritação vaginais, corrimento, sensibilidade mamária aumentada e sangramento vaginal irregular são alguns dos efeitos colaterais relatados pelas usuárias. ATENÇÃO: A ação contraceptiva não é garantida pelo fabricante se o anel for retirado da vagina por um período maior do que três horas. Se, ao contrário, a mulher esquecer de retirá-lo ao término da terceira semana, ele continuará inibindo a ovulação por até cinco semanas.

        A eficácia dos desses "criativos veículos" da contracepção hormonal combinada iguala-se à das pílulas tradicionais - 1 a 2 gestações para cada grupo de 1000 usuárias, por ano -, desde que seguidas fielmente as instruções de uso. A principal vantagem, oferecida por ambos, diz respeito à comodidade da usuária que não precisará lembrar-se, diariamente, de tomar a medicação. Como vimos, o anel vaginal tem ação contínua por três semanas, e o adesivo requer substituição somente a cada sete dias.

       Como todos os medicamentos, essas novas formulações possuem contra-indicações e, portanto, somente devem ser usadas se prescritas por um médico.

      Os anticoncepcionais hormonais combinados (os que reunem em sua fórmula um estrogênio e um progestagênio), seja sob a forma de comprimidos, adesivos ou aneis vaginais estão contraindicados naquelas mulheres que têm:

  • Antecedentes de problemas circulatórios, arteriais e/ou venosos (trombose venosa, embolia pulmonar, etc.).

  • Diagnóstico, ou suspeita, de tumores hormônio-dependentes (útero e mama).

  • Sangramento vaginal não-diagnosticado.

  • Antecedentes de tumores do fígado ou insuficiência funcional deste órgão.

  • Antecedentes de tumores do fígado ou insuficiência funcional deste órgão.

  • Fumantes (mais de 15 cigarros por dia) com mais de 35 anos de idade.

  • Enxaqueca com sintomas neurológicos (aura).

        Estas e outras condições clínicas devem ser investigadas de forma a evitar-se que os riscos superem os benefícios.

       Um outro ponto a ser ressaltado é que esses dois novos métodos não protegem a mulher contra as doenças sexualmente transmissíveis (DST) e a AIDS. As relações sexuais “casuais” - com parceiros desconhecidos e eventuais - merecem uma proteção adicional por meio do uso da “camisinha”.

     Desde a década de 60, quando surgiram os primeiros contraceptivos hormonais no Brasil, houve um permanente aprimoramento das fórmulas, com diminuição progressiva das dosagens hormonais. Nesse intervalo, foram descobertos novos esteróides com propriedades farmacológicas específicas e que proporcionam maior segurança para as usuárias. Desde então, a mulher pode exercer a sua sexualidade sem o temor de uma gravidez não desejada. Hoje, os casais dispõem de dezenas de opções para planejar o momento certo, o número e o intervalo entre as gestações.

      A reprodução é uma das mais importantes funções do organismo feminino. Para a mulher, porém, tão importante quanto exercer a sua capacidade reprodutiva, é poder mantê-la sob o domínio da própria vontade.

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  Para saber mais sobre este assunto:

  As the world grows: contraception in the 21st century - R. John Aitken et al. - American Society for Clinical Investigation, J Clin Invest. April 1; 118(4): 1330–1343, 2008.

  Update to Label on Birth Control Patch - Food and Drug Administration - FDA, January 22, 2008.

  Review of the combined contraceptive vaginal ring. - Frans JME Roumen - Ther Clin Risk Manag. 4(2): 441–451. April 2008.

  Estudo multicêntrico brasileiro - adesivo contraceptivo transdérmico semanal: preferência e satisfação das usuárias - Rui A. Ferriani et al. - Revista Brasileira de Medicina - VOL. 63 - Nº 4 - ABRIL - 2006.

  The Evra (ethinyl estradiol/norelgestromin) contraceptive patch: estrogen exposure concerns - Eric Wooltorton -Canadian Medical Association Journal, January 17, 2006.

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Lembramos que os textos da série "A Saúde da Mulher" têm caráter estritamente informativo e de apoio,
não substituindo - em hipótese alguma - as relações de confiança entre médicos e pacientes. (CAC)